Criado por Flávio Reis em qua, 11/02/2026 - 08:35 | Editado por Lígia Souza há 1 hora.
Comemorar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência significa reconhecer o acesso ao conhecimento como um direito em constante disputa. A história revela que mulheres já desafiavam a dominação masculina na produção de conhecimento séculos antes de a ciência se estruturar como profissão. No centro dessa resistência histórica, está Hipátia de Alexandria, filósofa e cientista do século IV, cujo legado permanece como um manifesto em defesa do pensamento crítico e livre.
Para a historiadora Ana Paula Scarpa, egressa da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Hipátia, a primeira mulher matemática documentada da história, foi uma figura de pensamento livre e de comportamento contrário ao esperado pela época. “Ela era uma intelectual voltada ao pensamento lógico, aos cálculos e à astronomia. Formada em Atenas, assumiu a Escola Alexandrina seguindo os passos do pai, o filósofo Teon”, pontua a historiadora. Além da atuação intelectual, ela se destacou por seu engajamento político.
O brilho de Hipátia colidiu com o radicalismo de sua época. Alexandria viveu a transição do pensamento helenístico para uma cristandade massiva e ortodoxa e Hipátia foi torturada e arrastada em praça pública. “Ela morre como uma espécie de recado da cristandade ao paganismo, no sentido de que não havia mais vez para o pensamento crítico e racional que não fosse o da ortodoxia”, explica Ana Paula.
Séculos depois, a figura de Hipátia ainda encontra ecos. Nesta data, a trajetória da cientista alexandrina nos convida a olhar para o presente e perguntar: quantas mulheres ainda enfrentam mecanismos de silenciamento ao ocupar espaços de saber?
MENOS MULHERES NO TOPO - Se na Antiguidade a barreira era a intolerância religiosa e política, hoje ela se manifesta em estruturas institucionais visíveis. No Brasil, o fenômeno conhecido como “efeito tesoura” ilustra como as mulheres são gradualmente afastadas do topo da carreira acadêmica.
A disparidade é gritante. Segundo pesquisa publicada na Revista Brasileira de Pós-Graduação, cerca de 57% dos estudantes de graduação são mulheres, porém, o percentual é reduzido conforme se avança na carreira científica no Brasil. Desse número, apenas 45% chegam à docência na graduação e 43% na pós-graduação. Se avançarmos para cargos políticos, a discrepância é ainda maior, como podemos observar em gráfico.
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É importante ressaltar que esses fatores não atingem todas as mulheres da mesma forma, pois o recorte racial aprofunda a desigualdade. Cientistas negras e mães foram o grupo mais impactado pela queda de produtividade em momentos de crise, como a pandemia de Covid-19, conforme afirmam dados analisados pelo coletivo Parent in Science.
AÇÕES PARA MUDAR O CENÁRIO - Hipátia de Alexandria nos mostra que a luta pelo espaço do saber é milenar. Se no século V a intelectualidade da matemática foi interrompida pela intolerância, hoje o compromisso das universidades públicas é garantir que nenhum talento seja silenciado por falta de suporte ou equidade.
Diante deste cenário, algumas iniciativas institucionais buscam enfrentar as assimetrias de gênero e parentalidade no ambiente acadêmico. Para reafirmar seu compromisso com as cientistas, a UFOP lançou, em 2023, o Programa Maternidade e Universidade (ManU), com o objetivo de reduzir a evasão acadêmica por meio da concessão da Bolsa Maternidade a alunas da graduação presencial, acumulável com outras bolsas de assistência estudantil. Mais recentemente, em 2025, a UFOP instituiu a Política de Equidade de Gênero e Parentalidade, que estabelece diretrizes para a implementação de ações concretas nos programas de pós-graduação, como a flexibilização de prazos, a oferta de disciplinas em formatos híbridos, a previsão de critérios compensatórios em editais de seleção e credenciamento, além de suporte específico para docentes e discentes responsáveis por crianças na primeira infância ou por pessoas com deficiência.
Retomar Hipátia no Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência não é apenas recordar uma mártir do conhecimento, mas celebrar a persistência da inteligência feminina, que, apesar das desigualdades, continua a produzir as respostas que o mundo precisa. A ciência só atinge sua plenitude quando se torna um ambiente onde o intelecto pode, finalmente, florescer em toda a sua diversidade.



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