O Distrito de Glaura, em Ouro Preto, recebeu no último sábado (11) o lançamento do curta-metragem de ficção "Sonhos de Glaura", dirigido pelo professor do Departamento de Jornalismo (Dejor) Adriano Medeiros da Rocha. A exibição aconteceu na Escola Municipal Benedito Xavier e reuniu moradores, convidados e a equipe envolvida na produção.
O filme foi desenvolvido por meio do projeto WebCineTV UFOP: criação em linguagem audiovisual afirmativa, experimental e de formação humanística, com apoio do Programa de Incentivo à Diversidade e Convivência (Pidic). A iniciativa integra o conjunto de ações do movimento "UFOP é Cinema", que busca fortalecer o audiovisual na universidade e contribuir para a criação de um bacharelado em Cinema e Audiovisual na instituição.
O curta é resultado de uma oficina gratuita de escrita criativa para cinema e audiovisual, realizada em 2024 com estudantes da própria escola. A proposta deu origem a uma narrativa construída de forma coletiva, envolvendo crianças não apenas como atrizes, mas também em diferentes etapas do processo criativo.
As filmagens ocorreram em setembro de 2025, nos distritos de Glaura e Cachoeira do Campo. A produção contou com a participação de estudantes dos cursos de Jornalismo, Artes Cênicas e Música da UFOP, além de moradores locais. Com o apoio das Secretarias de Educação e de Cultura e Turismo de Ouro Preto, foi possível estruturar uma base cinematográfica em Glaura, fortalecendo a relação entre universidade e comunidade.
A OBRA - A narrativa acompanha Glaura, personagem interpretada por Rafaela Dantas, uma menina criativa que vive no interior e constrói, a partir da literatura e das brincadeiras cotidianas, um imaginário rico e questionador. Em uma trajetória que transita entre o real e o imaginário, a protagonista estabelece uma forte conexão com a natureza e com o território onde vive.
Ao lado dos amigos Lina e Bê, e da galinha Pipoca — sua confidente —, Glaura desafia padrões e propõe reflexões sobre o papel da mulher, o pertencimento e a relação com o patrimônio cultural e ambiental. Com abordagem sensível, lúdica e poética, o filme trata de temas como identidade regional, preservação do meio ambiente e patrimônio material e imaterial, sendo recomendado para todas as idades.
Sobre o processo de construção do filme, Adriano ressaltou os desafios e aprendizados da experiência coletiva. De acordo com o professor, "construir arte com uma comunidade exige aproximação lenta, escuta sensível e muitas trocas", acrescentando que, "aos poucos, eles foram percebendo que queríamos fazer um filme — e, quando isso aconteceu, foi maravilhoso". Segundo ele, "também trabalhamos com atores não profissionais, em sua maioria crianças, o que demandou abordagens pedagógicas lúdicas", destacando que, "além disso, o filme envolve animais em cena, como a galinha Pipoca, o que tornou o processo ainda mais singular e divertido".
A atriz Rafaela Dantas, protagonista do filme, ao falar sobre sua experiência, considerada por ela como "especial", destacou sua identificação com a personagem, ressaltando que "Glaura é uma menina sonhadora, e isso me ajudou a sentir a personagem de forma mais profunda". Na oportunidade, ela deixou uma mensagem no sentido de que "as meninas podem sonhar e ser tudo aquilo que desejarem".
A mãe de Rafaela, Flávia Dantas, acompanhou a filha e ajudou nas filmagens. Ela ressaltou a importância da narrativa e da representatividade, dizendo que "a personagem tem muito em comum com a Rafaela: é uma menina determinada, que não segue padrões e entende que o mundo também é dela". Segundo ela, a leitura e a imaginação fortalecem esse processo, dando à sua filha "a liberdade de sonhar e criar". Ao comentar o filme, ela destacou que "falar de empoderamento feminino hoje é essencial, principalmente para as crianças, para que elas saibam que podem crescer e correr atrás dos próprios sonhos, mesmo que pareçam distantes".
LANÇAMENTO - Ao comentar sobre o lançamento, o diretor Adriano Medeiros destacou a emoção de exibir o filme junto à comunidade. "Não teria lugar melhor para lançar Sonhos de Glaura do que junto da comunidade que nos acolheu e participou ativamente de todo o processo", comemorou, acrescentando que esse "foi um daqueles momentos mágicos que a arte cinematográfica consegue proporcionar", mostrando o que é "sentir de perto a emoção de cada participante, familiares e moradores". Por tudo isso, ele considerou ter vivido "uma experiência marcante, que vou levar sempre na memória e no coração". "Mais uma vez, a união entre arte, educação e comunidade se mostrou extremamente frutífera, em uma noite de muita cultura e afetos", afirmou.
Adriano destacou também a importância de dar continuidade a iniciativas como essa. "Ainda enfrentamos desafios, como a busca por apoios e equipamentos, mas a experiência em Glaura nos trouxe ainda mais entusiasmo para seguir fortalecendo a produção audiovisual na região. É um movimento de resistência cultural que queremos manter vivo", disse.
O reitor da UFOP, Luciano Campos, também participou do lançamento e comentou que a produção da obra evidencia o papel transformador da universidade pública. Ele afirmou que "Sonhos de Glaura representa, de forma muito significativa, o papel da universidade pública na transformação social. É um trabalho que nos orgulha e que aponta para um futuro promissor no campo do cinema e do audiovisual na UFOP".
Para a diretora da escola, Andreia Diva da Silva, o projeto foi muito rico para a comunidade escolar, mostrando que "Glaura, dessa forma, trouxe visibilidade e despertou o interesse dos alunos". Ela disse ainda que "o projeto já deixou marcas; muitos alunos perguntam se haverá outro filme e como podem participar, o que mostra que uma semente foi plantada".
Moradora de Glaura há 62 anos, Maria de Fátima destacou a emoção de ver o distrito representado na tela, dizendo que "foi muito bonito ver as crianças participando e Glaura aparecendo no cinema". Para ela, o projeto representou "uma experiência muito especial para a comunidade", enfatizando ser "significativo ver o lugar onde a gente vive ganhar visibilidade e reconhecimento por meio da sétima arte".
PRODUÇÃO - Na equipe de produção, o sentimento foi de realização coletiva. A produtora e aluna do curso de Artes Cênicas da UFOP, Érica Martinez ressaltou o acolhimento da comunidade como elemento central, lembrando que "desde o início, fomos muito bem recebidos, e isso faz o filme ser tão especial", sendo também "uma obra que dialoga com a nossa realidade e é muito significativa para nós, mulheres". E ela complementou: "É um filme infantojuvenil importante, que dialoga com questões do feminismo e com o direito de sonhar e ocupar outros espaços além daqueles que a sociedade impõe".
Para a jornalista e assistente de produção, Regiane Barbosa, o filme carregou um significado simbólico importante. Ela disse ter "muito orgulho de fazer parte de uma obra que fala, de forma tão sensível, sobre pertencimento, identidade, infância e sobre o protagonismo feminino", acrescentando que "Sonhos de Glaura é, para mim, a prova de como o cinema pode transformar, conectar e criar sentidos".
O diretor de fotografia do filme e técnico administrativo da UFOP, Anderson Medeiros, destacou o caráter coletivo da produção e seu impacto formativo. "Para mim, esse projeto é algo muito verdadeiro", refletiu, observando que o trabalho "só aconteceu por causa da comunidade", destacando que "absolutamente tudo veio desse envolvimento coletivo". Ele afirmou que "há muito tempo eu já tinha o desejo de criar algo assim; aos poucos, fomos amadurecendo a ideia, pensando em uma estrutura de produção e em como fazer algo diferente".
Ele ainda ressaltou a dimensão do projeto para o campo da comunicação, dizendo que tudo isso "se conecta com um sonho maior, de fortalecer o audiovisual e, quem sabe, criar um curso de cinema". Otimista, ele disse que "a comunicação está em tudo — na política, no trabalho, na publicidade — e o cinema faz parte disso", acrescentando que a sua emoção é muito grande, fazendo-o sentir-se "privilegiado por fazer parte de um projeto que mobiliza estudantes, famílias e toda a comunidade".
EXIBIÇÕES - O filme já conta com algumas exibições agendadas, como na Escola Estadual Senhora Auxiliadora, na Casa de Cultura de Cachoeira do Campo e na Escola Estadual Marília de Dirceu.