A Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) sediou o III Seminário Recria, que nesta edição tem como tema “Comunicação e Primeira Infância”. Realizado no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (Icsa), nos dias 15 e 16 de setembro, o evento reuniu pesquisadores para discutir as relações entre comunicação, infância, educação e tecnologias digitais.
O seminário é uma ação itinerante da Rede de Pesquisas em Comunicação, Infâncias e Adolescências (Recria), formado por pesquisadores que produzem conhecimento sobre crianças e adolescentes a partir do campo da Comunicação, com ênfase nos processos comunicacionais e midiáticos.
Nesta terceira edição, o objetivo foi fortalecer e qualificar o campo da Comunicação para pesquisas voltadas à faixa etária de 0 a 6 anos, público contemplado pela Política Nacional Integrada da Primeira Infância (Pnipi), lançada em 2025 e que tem a Comunicação e a Informação entre seus eixos prioritários. O evento também marca os dez anos do Marco Legal da Primeira Infância, instituído em 2016.
Comunicação e infância
O evento teve início com a mesa de abertura, que contou com a participação da organizadora do evento, a professora do Departamento de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (Ppgcom) da UFOP, Karina Gomes Barbosa, do reitor da UFOP, Luciano Campos, do diretor do Icsa, Harrison Ceribeli e do coordenador do Ppgcom, Evandro Medeiros Laia.
Para Harrison, a realização do seminário está alinhada à função social da universidade pública.“Um seminário que reúne temas como comunicação, educação, infância e o universo digital está muito alinhado com aquilo que entendemos como uma das funções essenciais da universidade pública: contribuir para o desenvolvimento integral das pessoas e para a construção de uma sociedade mais justa e preparada para enfrentar os desafios do nosso tempo.”
Para o reitor da UFOP, Luciano Campos, a abordagem da infância a partir da Comunicação permite ampliar a compreensão sobre as experiências e os sentidos produzidos pelas próprias crianças.“A criança não pode ser confundida com o estudante. Por isso, considero muito significativo participar de um seminário em que a perspectiva de análise da vida das crianças passa também pela comunicação.”
Evandro Medeiros Laia, ressalta a importância de discutir a infância diante das transformações provocadas pelas tecnologias digitais.“É particularmente relevante quando pensamos nas questões relacionadas à internet, aos acessos, aos modos de uso e às apropriações, aos processos de plataformização, às inteligências artificiais e a todas essas temáticas que são urgentes no nosso tempo.”
A professora Karina Gomes Barbosa destaca o caráter coletivo da construção da Rede Recria e a importância da realização do encontro presencial.“Acho que este é o primeiro evento presencial da Rede Recria e que ele é resultado de um esforço coletivo muito grande. A rede se articula coletivamente desde a sua gênese. Eu não sou fundadora, entrei um pouco depois, mas acompanho esse processo e reconheço a importância dessa articulação.”
Segundo a professora, a articulação entre pesquisadores contribui para dar visibilidade ao tema e ampliar o debate sobre comunicação e infância. Ela também ressalta a relevância das políticas públicas relacionadas à área.
Crianças como sujeitos de comunicaçãoA mesa “Comunicação em interfaces: pesquisa, formação, práticas e políticas públicas para a Primeira Infância” discutiu a necessidade de reconhecer crianças e bebês como sujeitos dos processos comunicacionais e das políticas públicas. A atividade reuniu a Comunicóloga Juliana Tonin, Coordenadora da Pesquisa TIC Kids Online Brasil ,Luisa Adib e do professor Vital Didonet, com mediação da doutora em Comunicação, Saraí Schmidt.
A partir de diferentes perspectivas, os participantes abordaram os desafios de produzir pesquisas sobre a primeira infância e de compreender as formas pelas quais crianças e bebês se comunicam. Juliana Tonin destacou a invisibilidade histórica das crianças de 0 a 6 anos nas pesquisas em Comunicação, relacionada, entre outros fatores, à dificuldade de desenvolver metodologias capazes de considerar as especificidades dessa faixa etária.
A pesquisadora ressaltou que a comunicação com crianças não deve se limitar à palavra. Olhares, gestos, movimentos, silêncios, ritmos, brincadeiras e outras linguagens também expressam desejos, necessidades e formas de participação. Para ela, considerar a criança como sujeito implica repensar instrumentos de pesquisa, práticas profissionais e formas de interação.
Luisa Adib apresentou dados sobre o acesso e o uso da internet por crianças e adolescentes e destacou a importância de produzir evidências para orientar políticas públicas. Entre os pontos abordados estiveram a antecipação da idade do primeiro acesso à internet, o crescimento da presença de crianças mais novas no ambiente digital e os desafios de conciliar acesso, conectividade e proteção.
Já Vital Didonet enfatizou a comunicação como dimensão constitutiva das relações humanas e defendeu a participação das crianças na construção de políticas públicas. Para o pesquisador, a escuta precisa considerar as múltiplas linguagens da infância e não depender exclusivamente da capacidade de verbalização.
A doutoranda da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Débora Oliveira, que também participou da primeira edição do Seminário Recria, realizada on-line. Para ela, o encontro contribui para aproximar pesquisadores que têm a infância como objeto de estudo. “Considero este um espaço muito rico de debates e trocas com nossos pares e com pessoas que realmente pesquisam a infância.”
O evento também contou com grupos de trabalhos e diversas oficinas que tiveram com objetivo trabalhar a relação entre a infância e comunicação. Para Inayá Ahau, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), a participação no seminário também contribui para acompanhar as transformações provocadas pelas tecnologias e pensar estratégias de proteção e orientação para as crianças. “Estar em um lugar que discute comunicação, para mim, é um jeito de a gente não ficar para trás, porque o mundo está mudando muito rápido.”
Educação midiática amplia debate sobre direitos de crianças e adolescentes
A mesa de encerramento do III Seminário Recria destacou o papel educação midiática, infâncias e adolescências no primeiro ano do Eca Digital. Participaram a professora da Universidade de Brasília (UnB), Rafiza Varão, a doutora em Comunicação, Brenda Guedes com mediação da professora de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Thaís Furtado.
Rafiza Varão explicou sobre o projeto de extensão SOS Imprensa, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). A iniciativa possui, há anos, uma frente voltada à educação midiática e, atualmente, também desenvolve ações com crianças do ensino fundamental, buscando oferecer uma formação que contribua para uma relação mais consciente e crítica com a mídia.
Segundo Rafiza, a experiência do projeto mostrou que o auxílio à pessoas que se sentiam vítimas da imprensa não era suficiente. “Com o tempo, percebemos que simplesmente prestar auxílio às pessoas que se sentiam vítimas da imprensa não era suficiente. Era preciso fazer com que elas também compreendessem como a imprensa, o jornalismo e os meios de comunicação funcionam, para que pudessem desenvolver uma leitura mais autônoma e crítica desses meios”, explica.
A partir dessa compreensão, o SOS Imprensa, que inicialmente tinha um caráter de pesquisa, passou a se consolidar como projeto de extensão, ampliando sua atuação junto à comunidade e investindo na formação para a leitura crítica dos meios de comunicação.
A professora Brenda reforçou que a comunicação deve integrar as discussões sobre políticas públicas para a infância e adolescência de forma interdisciplinar e intersetorial. Para ela, o campo da comunicação possui contribuições específicas tanto para a produção de conhecimento quanto para a formulação e implementação de políticas. “A gente precisa educar com a mídia também para a mídia”, afirmou Brenda, ao defender uma formação que prepare comunicadores para compreender criticamente as tecnologias e atuar na promoção dos direitos de crianças e adolescentes.
A pesquisadora também ressaltou que os direitos das crianças no ambiente digital não devem ser tratados de forma separada daqueles assegurados no mundo offline. “Se a criança é prioridade absoluta, ela também tem que ser prioridade absoluta no que tem a ver com a internet”, destacou.