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Desafios da comunidade surda são debatidos em evento no campus de João Monlevade

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Lígia Souza/ACI
Auditório com público sentado em cadeiras vermelhas enquanto uma palestrante fala no palco, ao lado de um telão com apresentação projetada.

O setembro surdo foi tema de evento do Instituto de Ciências Exatas e Aplicadas (Icea), no campus de João Monlevade. À frente da organização, estava a professora de Língua Brasileira de Sinais (Libras) da unidade, Cássia Tensol. Para a professora, que é a primeira docente surda do campus, a Universidade também deve ser um espaço de diálogo, de troca de experiências e de construção de conhecimentos que vão além da formação profissional. “Falar sobre o Setembro Surdo dentro do Icea possibilita aproximar alunos, servidores e a comunidade de João Monlevade da Libras e da realidade da comunidade surda, contribuindo para romper barreiras, preconceitos e mitos que ainda existem”, diz Cássia.

A primeira palestrante foi a professora da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Rosely Lucas de Oliveira, que abriu com o tema “Lutas, conquistas e protagonismo do movimento surdo”. A docente destacou a importância da organização do movimento surdo para conquistas, inclusive o mês de setembro como momento de sensibilização sobre o tema, já que foi em 23 de setembro de 1857 que foi fundada a primeira escola de surdos do Brasil, que é hoje o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines). Segundo a docente, setembro traz “essa memória da resistência e da cultura surda, onde tudo começou e se perdura e, até hoje, através de muitas lutas, conquistamos muitos espaços”.

Uma das lutas mais importantes desse movimento foi destacada pelo professor da Universidade de Lavras (Ufla), Tales Douglas, que levou ao debate o tema “política linguística para a comunidade surda: direitos, acessibilidade e participação social”. Tales afirmou que o reconhecimento da Libras é o ponto de partida para a inclusão das pessoas surdas, mas esse é um movimento que deve continuar. “Não podemos parar aqui, devemos continuar a difundir isso para outras pessoas, em outros espaços”, afirma, complementando ainda que o evento faz parte desse caminho.

MERCADO DE TRABALHO - O doutorando em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Hélio Alves de Melo Neto, trouxe uma perspectiva prática ao contar sobre sua própria experiência prática a partir da sua formação anterior, como Arquiteto e Urbanista. O pesquisador contou sobre a dificuldade em se inserir no mercado de trabalho como uma pessoa surda, sem encontrar possibilidade de inclusão nas empresas da área, mesmo com a Lei nº 8.213/1991, que obriga empresas com 100 ou mais funcionários a reservar de 2% a 5% de suas vagas de trabalho para pessoas com deficiência.

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Lígia Souza/ACI
Palestrante apresenta sobre educação bilíngue de surdos em um auditório. No palco, a tela exibe “O que é Educação Bilíngue de Surdos?”. Em primeiro plano, um tradutor de Libras, de camisa branca, segura um microfone.
Tradutores e intérpretes de Libras atuaram em todo o evento.

Outro desafio, de acordo com Hélio, é a superação da visão assistencialista dentro das empresas. “A visão assistencialista está relacionada à relação das pessoas com deficiência no mercado de trabalho. O empregador pensa: ‘ai, que pena. Vamos colocar ela aqui dentro porque ela vai ter muita dificuldade’, e não pela capacidade profissional que ela tem. É uma visão antiquada que não reconhece a pessoa por suas capacidades”.

Por dificuldades como essas, Hélio acabou deixando a profissão de Arquiteto e se tornou professor de Libras, trajetória parecida com a convidada Tayane Braga, que se formou em Engenharia de Produção e hoje atua na Educação em João Monlevade. Ela encontrou desafios similares quando tentou um trabalho na sua área de formação. “Parecia que as empresas não queriam dar oportunidade para pessoas surdas, ou só queriam dar oportunidade para pessoas com deficiências menos aparentes. Eu me sentia excluída”, relatou.

INCLUSÃO - No auditório, pessoas surdas e ouvintes acompanharam as palestras e relatos dos convidados. Todos os palestrantes, além da organizadora, são surdos e o evento contou com a participação de dois tradutores e intérpretes de Libras, Tiago Cabral e Gustavo Costa, que garantiram a inclusão do público.

Agora, a expectativa de Cássia é que o evento tenha impactado quem estava lá, principalmente os ouvintes. “Espero que o evento deixe nos participantes não apenas novos conhecimentos, mas também uma nova perspectiva sobre as pessoas surdas, despertando mais consciência, respeito e valorização da Libras, da cultura e da comunidade surda”, assinalou a professora. 

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Lígia Souza/ACI
Foto de grupo em auditório, com dezenas de pessoas reunidas diante de um telão com a apresentação “Setembro Surdo: lutas, conquistas e protagonismo do movimento surdo”. Bandeiras aparecem ao lado do palco.
Participaram pessoas das comuniadades interna e externa, incluindo surdos e ouvintes

SETEMBRO SURDO - Diversas datas são celebradas em setembro pela comunidade surda, o que justifica a escolha deste mês como o momento de conscientização dessa causa: 23 de setembro é o dia da Língua de Sinais; 26 de setembro, dia da fundação do Ines e Dia Nacional do Surdo; e 30 de Setembro é Dia Internacional do Surdo e Dia internacional do profissional tradutor e intérprete.

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