
Criado por Gabriel Ferreira em sex, 18/09/2026 - 16:47 | Editado por Flávio Reis há 1 hora.
O trabalho foi conduzido pelo historiador egresso da UFOP, Otávio Luiz Machado, que possui uma trajetória de trabalhos de coleta de depoimentos, construção de acervos fotográficos e difusão do patrimônio cultural por meio de livros, exposições e plataformas digitais.
O esforço contínuo ganhou um dos mais importantes selos de reconhecimento público, concedido pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), vinculado ao Ministério da Cultura (MinC), reafirmando a relevância da história comunitária e da memória social em escala nacional.
Para Otávio, integrar a prática da museologia social com a gestão participativa e a preservação do patrimônio material e imaterial, com reconhecimento do Ibram/MinC, fortalece a autonomia dos territórios na salvaguarda de suas identidades, reafirmando que a memória popular é pilar sustentador da soberania cultural brasileira.
Otávio concedeu entrevista para ACI. Confira o relato do historiador sobre o reconhecimento:
ACI: O que motivou o início da pesquisa?
Otávio: A construção da pesquisa e do acervo documental sobre Ouro Preto estrutura-se como um processo contínuo de investigação histórica, articulado em diferentes etapas metodológicas e recortes temáticos ao longo do tempo. Fui a pessoa certa na hora certa, pois percebia que quase nada era feito para se preservar a nossa memória histórica e ao invés de reclamar criei um sentimento de “fazer algo”. Fui impulsionado pela percepção de que a memória histórica local enfrentava uma lacuna de iniciativas sistemáticas de preservação. Esse trabalho nasceu da decisão de transformar o incômodo em ação concreta, assumindo a responsabilidade de registrar e salvaguardar o patrimônio imaterial antes que o tempo o apagasse.
ACI: O que exatamente compõe a obra?
Otávio: Esse percurso historiográfico iniciou-se com o estudo da vida universitária ouro-pretana, ocasião em que a metodologia da história oral permitiu mapear as sociabilidades cotidianas e as dinâmicas acadêmicas da cidade a partir da década de 1920, por meio do depoimento direto de dezenas de depoentes que vivenciaram e atuaram no cenário local desde então. Em um segundo momento, a pesquisa direcionou-se para a análise do movimento estudantil e dos impactos da ditadura civil-militar de 1964 na região. Essa fase caracterizou-se por um denso trabalho de campo e de arquivo, resultando na constituição de um expressivo fundo documental composto por dezenas de entrevistas, documentos institucionais, panfletos e registros de memória política sobre a resistência comunitária e acadêmica. Recentemente, o eixo central do trabalho voltou-se para a comunidade ouro-pretana em sua dimensão identitária e territorial. Esse movimento permitiu a ampliação e o adensamento do acervo voltado às relações comunitárias, às manifestações da cultura popular e aos saberes tradicionais, consolidando uma coleção documental que conecta a história institucional e acadêmica às vivências e memórias do povo de Ouro Preto.
ACI: Conta pra gente também qual foi o sentimento de ter o trabalho reconhecido da forma que foi, com uma premiação tão relevante?
Otávio: “O reconhecimento Ibram/MinC assegura as condições institucionais para que este acervo permaneça preservado e acessível, garantindo que as futuras gerações tenham amplo acesso à memória social e territorial. A constante utilização dessa coleção como fonte primária por pesquisas acadêmicas e novos estudos historiográficos reafirma a relevância de todo o trabalho desenvolvido ao longo das últimas décadas. O sentimento de dever cumprido intensifica-se ao constatar que, mesmo diante das adversidades materiais e operacionais do trabalho de campo, foi possível registrar e salvaguardar a palavra de inúmeros sujeitos históricos — muitos dos quais não se encontram mais entre nós e tiveram naquelas escutas a sua única oportunidade de registro de vida e memória. Ter sido a única testemunha a procurá-los para documentar suas vivências confere ao acervo um valor inestimável e insubstituível, confirmando que cada esforço empreendido na preservação do patrimônio imaterial cumpriu o seu mais nobre papel social.



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