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A reconstituição de três faces e a perseverança da história negra

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Três mulheres negras representadas através de um único rosto, emoldurado por um turbante estampado, brincos de semente e com um olhar fixo para o centro. (...) O retrato dessa mulher desconhecida foi replicado durante dois séculos, enquanto os traços de Tereza de Benguela, Maria Felipa e Luiza Mahin se perdiam. 

Perder talvez não seja a palavra exata para descrever o processo de apagamento dos corpos negros, principalmente de mulheres negras na História. As três mulheres, que até então não possuíam face e identidade visual concreta, foram lideranças importantes para a resistência negra no cenário nacional. 

A unificação dessas faces escancara mais uma das estratégias do racismo, que altera o imaginário coletivo para manter o controle das narrativas que conduzem a nossa sociedade. Estamos falando de grandes heroínas que, ao terem seus nomes pesquisados em sites de busca, são associadas aos mesmos olhos, boca e vestes.

Apenas recentemente, através de registros históricos, pesquisas acadêmicas e depoimento de estudiosas da vida dessas mulheres, os três rostos da revolução foram reconstituídos com o uso de recursos de inteligência artificial. A partir da iniciativa "Faces Negras Importam", realizada pelo Banco do Brasil, as pesquisadoras Aline Najara da Silva Gonçalves, Rejane Mira e Silviane Ramos Lopes da Silva resgataram detalhes importantes que distinguem e dão feições específicas para cada uma delas. 

Lutando contra o apagamento das mulheres negras

Como aponta Silviane Ramos — pesquisadora que auxiliou no processo de reconstituição e pertencente à 5ª geração de Tereza de Benguela — em entrevista para o "Faces Negras Importam": "a gente cartografa, territorializa, resiste com outras ferramentas para contar sobre nossos saberes e nossos fazeres". A partir da música, da literatura, da oralidade e, agora, da tecnologia, artistas e intelectuais negros recorreram aos diversos formatos e metodologias para manter vivas e presentes as histórias de Tereza de Benguela, Maria Felipa, Luiza Mahin e muitas outras mulheres negras que se colocaram como defensoras da liberdade e da dignidade do povo negro.

Em 1994, a Escola de Samba Unidos do Viradouro cantou "A luz de Tereza não apagará" para celebrar a líder quilombola que comandou o Quilombo dos Quariterê. Abrigando cerca de 100 pessoas negras e indígenas, a comunidade regida por Tereza resistiu contra a escravidão por duas décadas.

Já em 2019, a Escola Estação Primeira de Mangueira também clamava para o país não esquecer nossas heroínas com o verso: "Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês". Nesse enredo, a escola lembra o nome da grande representante da resistência negra na Bahia e articuladora da Revolta dos Malês, em 1835, Luiza Mahin. 

Também lutando pela independência e liberdade da população negra na Bahia, especialmente na Ilha de Itaparica, Maria Felipa atravessa o imaginário do território por meio de cordéis e da contação de história. Junto a um grupo de 200 pessoas, ela enfrentou as embarcações inimigas presentes nas imediações da ilha, em 1823. 

Tereza de Benguela, Maria Felipa e Luiza Mahin possuem histórias próprias, atributos distintos, cada uma com suas particularidades, mas unidas pela defesa dos direitos de existir em sua própria pele.

Neste Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a UFOP também se une nessa luta para reverberar e auxiliar na reconstrução do imaginário coletivo. Trazemos em nossa campanha as fotos reconstituídas pela iniciativa "Faces Negras Importam", apoiando a propagação dessas imagens que refletem a identidade única de cada uma dessas mulheres. Como espaço de troca de conhecimentos e experiências, também somos mecanismo de repercussão de novos e importantes feitos que concedem maior dignidade, visibilidade e respeito àquelas que vieram antes e pavimentaram o caminho que pisamos agora.

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