A Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) sediou nesta quinta (24), no Restaurante Universitário (RU) de Ouro Preto, uma mobilização social de conscientização da importância da doação de órgãos, promovida pela servidora pública municipal e ativista da causa da doação de órgãos, Lisiane Bento, em parceria com a professora do Departamento de Direito (Dedir) da UFOP, Iara Souza.
A mobilização contou com o apoio institucional do MG Transplantes e da Santa Casa de Misericórdia de Ouro Preto, e surgiu a partir da participação da vice-reitora Roberta Fróes, em um seminário sobre doação de órgãos organizado por Lisiane e Iara. O evento, que já está em sua quinta edição, motivou a realização de uma atividade de conscientização na Universidade.
Para Iara, a participação da UFOP na campanha é importante por seu papel na produção e disseminação do conhecimento. Segundo ela, a falta de informação ainda é um dos fatores que dificulta a decisão das famílias sobre a doação. “Quando a gente faz ações como essa e divulga a doação de órgãos e a necessidade de informar a família, nós estamos passando o conhecimento e eliminando dúvidas das pessoas”, explica.
A professora também destaca que ainda existem dúvidas sobre aspectos jurídicos e médicos relacionados à doação. Um deles é a necessidade de comunicar à família a vontade de ser doador. De acordo com Iara, mesmo que a pessoa tenha manifestado anteriormente essa intenção, a legislação determina que a decisão sobre a doação seja autorizada pela família.
Outro tema abordado durante a mobilização foi o diagnóstico de morte encefálica, que segue protocolos médicos específicos e envolve exames para confirmar a irreversibilidade da condição. Segundo Iara, quando a família autoriza a doação, uma única pessoa pode salvar ou beneficiar até oito vidas.
A disseminação dessas informações, segundo a professora, é também uma forma de envolver a comunidade acadêmica na conscientização. “A maioria aqui, claro, na Universidade, são estudantes que vão divulgar essas informações sendo agentes multiplicadores dessas informações para as famílias e para sociedade em geral”, afirma.
EXPERIÊNCIA PESSOAL COM A DOAÇÃO - A mobilização também tem um significado pessoal para Lisiane Bento. Ela é a primeira transplantada cardíaca de Ouro Preto e passou pela experiência de aguardar por um órgão para realizar o transplante. “Depois que passei por isso tudo eu decidi: não posso me calar, eu preciso usar a minha história para conscientizar as pessoas”, conta.
Para Lisiane, falar sobre doação de órgãos é também discutir empatia e a possibilidade de transformar o momento de luto de uma família em esperança para outras pessoas. Ela afirma que cerca de 70 mil pessoas aguardam atualmente por um transplante no Brasil e aponta a falta de informação como um dos fatores relacionados à recusa dos familiares.
A ativista também destaca a participação de Ouro Preto no processo de doação. Segundo ela, o município possui um hospital captador de órgãos, possibilitando que órgãos doados na cidade sejam destinados a pacientes de diferentes regiões.
COMUNIDADE ACADÊMICA COMO MULTIPLICADORA - A vice-reitora Roberta Fróes também participou da mobilização. Para ela, a discussão sobre doação de órgãos precisa alcançar diferentes espaços, incluindo a Universidade. “É um tema doloroso e que ninguém quer passar por ele, mas em algum momento, infelizmente, nós vamos nos deparar com o falecimento de alguém. E pode não ter mais jeito para uma pessoa, mas esse luto pode se tornar a esperança para outras”, afirma.
Entre os estudantes que participaram da ação estava Arthur Viana, do terceiro período do curso de Direito. O interesse dele pelo tema também está relacionado a uma experiência familiar: o pai passou por um transplante após um período de tratamento e hemodiálise. “Foi um período bastante tenso para minha família, ter meu pai na hemodiálise e ver ele hoje em dia precisando de vários cuidados para a saúde”, relata.
A experiência fez com que Arthur desenvolvesse interesse pelo tema e passasse a considerar a doação de órgãos como uma possibilidade para si. Ele conta que já conversou com a família sobre o assunto e pretende ser doador caso seus órgãos possam ser aproveitados.
A mobilização reforçou a importância de conversar com familiares sobre a intenção de ser doador e de buscar informações sobre o processo de doação de órgãos. Para os organizadores, a informação é uma das formas de ampliar o diálogo sobre o tema e contribuir para a formação de uma cultura de doação.