A prática de exercícios físicos resistidos, como a musculação, tem se consolidado como uma estratégia acessível e eficaz na prevenção e no retardo dos sintomas da doença de Alzheimer. Evidências científicas indicam que esse tipo de atividade contribui para a melhora da memória, da cognição e da autonomia de pessoas idosas, além de atuar diretamente em mecanismos biológicos associados ao desenvolvimento da doença.
Dados da Federação Brasileira das Associações de Alzheimer (Febraz) apontam que o Brasil tem atualmente mais de dois milhões de pessoas vivendo com algum tipo de demência. A projeção é que esse número chegue a cinco milhões e quinhentas mil até 2050. O cenário é agravado pelo subdiagnóstico: segundo o Relatório Nacional sobre a Demência no Brasil (Renade), publicado em 2024, recebem reconhecimento formal no país entre 71,6% e 77% dos casos apenas.
No mundo, o Alzheimer representa cerca de 60% a 70% dos casos de demência. Apesar dos avanços científicos, ainda não existem tratamentos capazes de interromper completamente a progressão da doença, o que reforça a importância de estratégias não farmacológicas.
De acordo com a professora Arlete Barcelos, do Departamento de Cirurgia, Ginecologia e Obstetrícia e Propedêutica (DECGP) da Escola de Medicina da UFOP, o exercício resistido atua como um "treinamento" para o corpo e para o cérebro. "A prática de exercícios resistidos, quando orientada por um profissional, consegue retardar o envelhecimento metabólico, ósseo, muscular e principalmente cerebral. Isso significa envelhecer com mais qualidade de vida e autonomia", explica.
Segundo ela, o treinamento de força combate a perda de massa muscular, comum após os 60 anos, e ajuda a prevenir a sarcopenia, condição associada ao aumento do risco de quedas, fraturas e perda da independência. Além dos benefícios físicos, o exercício também interfere em processos inflamatórios e hormonais. "O exercício resistido atua como moderador do estresse crônico, reduzindo a produção do hormônio do estresse. Ao controlar esse hormônio, diminuímos o impacto de transtornos como ansiedade e depressão. Ele também melhora a plasticidade cerebral e aumenta a circulação de oxigênio no cérebro, fatores importantes para retardar doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer", destaca.
Embora muitos estudos tradicionalmente enfatizem exercícios aeróbicos, pesquisas recentes indicam que o exercício resistido pode ser uma alternativa igualmente ou, em alguns aspectos, até mais eficaz para a população idosa. "Estudos mostram que seis meses de musculação, três vezes por semana, podem proteger o hipocampo", afirma a professora.
Ela ressalta que a prática deve sempre ser acompanhada por profissionais capacitados e pode ser adaptada a diferentes níveis de autonomia. Idosos ativos podem realizar treinos de maior intensidade, enquanto aqueles com mobilidade reduzida podem praticar exercícios de baixo impacto, como atividades sentadas, hidroginástica e treinos de equilíbrio. Mesmo idosos com baixa autonomia podem adaptar atividades cotidianas, como o movimento de sentar e levantar, para estimular a força muscular.
Para a especialista, discutir prevenção é tão importante quanto discutir tratamento. "A medicina preventiva prioriza a manutenção da saúde e da qualidade de vida antes do surgimento das doenças. Muitas condições crônicas, como doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e até o Alzheimer, podem ser retardadas com mudanças no estilo de vida", pontua. Ainda segundo ela, estratégias como alimentação adequada, exames periódicos e prática regular de exercícios físicos são fundamentais para um envelhecimento saudável e funcional.
CONTRIBUIÇÃO DA UFOP - As pesquisas sobre exercício resistido e Alzheimer contam com a participação da equipe da Escola de Medicina da UFOP, em colaboração com pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Os estudos investigam biomarcadores de neuroproteção estimulados pela contração muscular em modelos experimentais com comprometimento cognitivo leve e doença de Alzheimer. "Observamos que o exercício resistido conseguiu reverter alterações físicas e comportamentais em modelos experimentais, além de reduzir a inflamação e a carga de placas beta-amiloides no hipocampo", explica Arlete.
Segundo ela, os resultados indicam que o treinamento de força pode atuar como estratégia não farmacológica acessível e eficaz para retardar a progressão da doença. Novos resultados e publicações estão em andamento.
IMPACTO SOCIAL E POLÍTICAS PÚBLICAS - Além dos benefícios individuais, a inclusão de exercícios resistidos em programas de saúde pública pode reduzir custos com internações e medicamentos, especialmente entre populações de baixa renda.
"A inclusão da musculação e de outras atividades de resistência em políticas públicas funciona como um investimento preventivo. Ao reduzir a progressão de doenças crônicas, diminuímos também os custos com cuidados de longa duração", afirma a docente.
Em 2024, foi sancionada a Lei nº 14.878, que estabelece diretrizes para o cuidado integral às pessoas com Alzheimer e outras demências. A ampliação de estratégias preventivas pode fortalecer essa política e ampliar a qualidade de vida de pacientes e familiares.