Aprender microbiologia pode ser um desafio para estudantes da educação básica. Conceitos relacionados a bactérias, mecanismos de infecção e transmissão de doenças envolvem fenômenos não observáveis a olho nu e, muitas vezes, exigem que diferentes processos biológicos sejam compreendidos de forma integrada. Para tornar o processo de ensino mais atraente e interativo, uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) transformou esses conteúdos em uma experiência lúdica de aprendizagem.
A iniciativa deu origem ao Biocombat, um jogo de cartas que trabalha conceitos relacionados à microbiologia, especialmente aqueles envolvidos na transmissão e prevenção de doenças. A proposta foi criada por Raul Vinicius Salata Souto, durante seu percurso no Mestrado Profissional em Ensino de Ciências (MPEC), em articulação com o Departamento de Ciências Biológicas (Decbio) da UFOP. A investigação foi realizada junto a estudantes do segundo ano do ensino médio de uma escola pública de Belo Horizonte (MG), por meio de pesquisa qualitativa fundamentada nas noções de Aprendizagem Significativa e Aprendizagem Baseada em Problemas.
Ao longo de quatro semanas, sete estudantes participaram de oito encontros de uma hora de duração cada, realizados fora do horário regular de aula. As atividades comprreendiam as chamadas “batalhas biológicas”. Para analisar a experiência, os pesquisadores utilizaram diário de campo, gravações em áudio e vídeo, registros produzidos pelos alunos e alunas e atividades avaliativas.
Os resultados indicaram que a proposta conseguiu mobilizar o interesse e o envolvimento de boa parte dos participantes, além de contribuir para a revisão e o aprofundamento de conceitos já estudados. O grupo também demonstrou compreensão mais contextualizada e significativa e postura mais reflexiva sobre seus próprios processos de aprendizagem.
“Ao aproximar a pesquisa acadêmica da realidade da educação básica, o estudo evidencia uma das possibilidades de atuação da universidade na construção de soluções para desafios encontrados em sala de aula”, destaca Raul. A experiência desenvolvida durante o mestrado foi posteriormente aprimorada e deu origem ao MicroBioCombat, versão atualizada do jogo, que amplia as possibilidades de utilização da ferramenta no ensino de microbiologia.
A versão atual é composta por 81 cartas que representam bactérias patogênicas, vias de transmissão e estratégias de prevenção ou tratamento. Durante as partidas, estudantes combinam as cartas para simular cenários de infecção e mecanismos de defesa correspondentes. Dessa forma, além de trabalhar conceitos microbiológicos, o jogo estimula interação, comunicação e tomada de decisões.
A proposta pode ser adaptada a diferentes níveis de ensino e contextos curriculares. Ao colocar alunos e alunas em posição ativa, o jogo busca aproximar conteúdos de microbiologia, imunologia, epidemiologia e ecologia de situações relacionadas ao cotidiano. A ferramenta também pode contribuir para alfabetização científica e educação em saúde, ao abordar conhecimentos que fazem parte do dia a dia da sociedade.
A versão atualizada do jogo foi apresentada em artigo publicado na seção "Pedagogy", da revista internacional Access Microbiology, especializada em pesquisas na área de Microbiologia. Além de Raul, primeiro autor do trabalho, assinam o texto Edmara Rocha dos Santos Moreira, também mestre pelo MPEC, e Leandro Márcio Moreira, professor do Decbio. A publicação amplia a projeção internacional da pesquisa desenvolvida na Universidade e insere uma experiência brasileira de ensino de Ciências no debate sobre metodologias ativas de aprendizagem.
A trajetória do projeto mostra uma das possibilidades de atuação das universidades na educação básica: a partir de um desafio encontrado em sala de aula, a pesquisa acadêmica pode contribuir para a criação e o aprimoramento de ferramentas pedagógicas que retornam à escola para serem utilizadas por outros professores.