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Pesquisadores identificam vulnerabilidade da região Amazônica e defendem controle sanitário nos aeroportos

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O grupo interdisciplinar de 10 cientistas do Brasil e do México, dentre eles quatro da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) — Sérvio Pontes Ribeiro, Alcides Castro e Silva, Alexandre Barbosa Reis, e Wendel Coura-Vital —, acaba de concluir um modelo matemático que descreve a dinâmica da disseminação do SARS-CoV-2 através da rede de transporte aéreo. 

O modelo gera algumas previsões alarmantes para a transmissão no Brasil, mas aponta para possíveis soluções se forem implementados nos aeroportos um protocolo severo de vigilância de entrada e o monitoramento das pessoas que chegam de regiões de risco, agora nacionais e internacionais. O grupo de pesquisadores é composto por virologistas, geneticistas, microbiologistas, físicos e ecólogos. A equipe abordou o problema da disseminação da pandemia de coronavírus em todo o território brasileiro. 

Os pesquisadores defendem a implementação de tais protocolos nos principais aeroportos — o que, se feito agora, pode proteger eficientemente os povos indígenas na Amazônia. 

PRINCIPAIS CONCLUSÕES DO ESTUDO 

1 - A falta de um rígido controle sanitário aeroportuário tornou o Brasil mais vulnerável do que outros países tropicais em desenvolvimento, tanto aqueles com redes aeroportuárias semelhantes mas com um tamanho populacional muito maior, como a Índia (Ásia), quanto aqueles com população semelhante mas com uma rede aeroportuária mais simples, como a Nigéria (África);

2 - A rede aeroportuária brasileira possui alta capilaridade e permite a rápida disseminação de doenças;
 

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Figura 2 do artigo

3 - O transporte aéreo possui uma forte centralidade nas capitais e grandes cidades do Sudeste, o que provocará uma dinâmica exponencial de infecção em várias cidades ao mesmo tempo. O primeiro caso no Brasil foi registrado em 26 de fevereiro e, no modelo, se nada mais for feito, de forma síncrona, a maioria das grandes cidades do leste e do sul poderá estar amplamente infectada por volta do 50º dia e tornar-se contaminante das demais cidades, conectadas pela complexa rede de aeroportos. Esse padrão causaria o colapso dos serviços de saúde nas cidades que possuem os hospitais mais bem equipados;

4 - Consequentemente, a estrutura da rede aérea causaria duas ondas de contaminação, com uma rápida disseminação da doença no país entre o 65º e o 80º dia após o primeiro caso (o que seria entre os dias 01 de abril e 16 de maio). A primeira onda se daria pelo grande aumento diário da doença após 50 dias, como já descrito, para as cidades mais densamente conectadas (e que recebem a maioria dos voos internacionais), por volta de 16 de abril. A segunda onda aconteceria após 90 dias (26 de maio), para as cidades mais periféricas, incluindo toda a Amazônia e região Centro-Oeste. O fato dessas regiões serem atingidas em uma segunda onda é a boa notícia, pois há mais tempo de organizar uma resposta sanitária para essas que também são as regiões mais vulneráveis do ponto de vista de saúde pública;

5 - Especificamente para a Amazônia, a cidade de Manaus é um "clustering" regional da rede, capaz de espalhar o coronavírus pelas partes mais remotas da região amazônica, expondo, em pouco tempo, uma quantidade considerável de populações indígenas. O covid-19 pode ser ainda mais devastador para esses grupos étnicos, que geralmente têm maior suscetibilidade a doenças não nativas. Da mesma forma, cidades e vilas remotas também são as mais expostas a serviços públicos de saúde precários. Muitas lideranças e organizações indígenas já estão reivindicando ações específicas para protegê-las. Uma vigilância severa e o acompanhamento nos dois aeroportos de Manaus são um bom começo. A mensagem é que ainda há tempo para reverter essa situação de vulnerabilidade à SARS-Cov-2 no Brasil, pelo menos para as populações das regiões mais remotas do país. 
 

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Figura mostra os picos da doença
 
 
OS PESQUISADORES

Sérvio Pontes Ribeiro - Núcleo de Pesquisas em Ciências Biológicas, Universidade Federal de Ouro Preto
Wesley Dáttilo - Red de Ecoetología, Instituto de Ecología AC (México)
Alcides Castro e Silva - Laboratório da Ciência da Complexidade, Departamento de Física, Universidade Federal de Ouro Preto 
Alexandre Barbosa Reis - Laboratório de Imunopatologia, Departamento de Análises Clínicas, Escola de Farmácia, Universidade Federal de Ouro Preto
Aristóteles Góes-Neto - Laboratório de Biologia Molecular e Computacional de Fungos, Departamento de Microbiologia, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais
Luiz Carlos Junior Alcantara - Laboratório de Flavivírus, Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz
Marta Giovanetti - Laboratório de Flavivírus, Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz
Wendel Coura-Vital - Laboratório de Epidemiologia e Citologia, Departamento de Análises Clínicas, Escola de Farmácia, Universidade Federal de Ouro Preto.
Geraldo Wilson Fernandes - Departamento de Genética, Ecologia & Evolução/ICB, Universidade Federal de Minas Gerais
Vasco Ariston Azevedo - Departamento de Genética, Ecologia & Evolução/ICB, Universidade Federal de Minas Gerais

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