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A arte e a pandemia: adaptação a uma nova realidade

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Já pensou em como as intervenções artísticas vêm acontecendo durante a pandemia? Imaginou como acontece o processo de criação enquanto estamos restritos à vida on-line? O "Em Discussão" desta semana convida o professor do Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Marcelo Eduardo Rocco de Gasperi para refletir sobre essas e outras questões acerca da arte e do papel por ela desempenhado na pandemia e sobre um novo campo de pesquisa que surge.  
 
Marcelo Rocco é também diretor teatral e pesquisa Artes da Cena e Teorias e Práticas da Cena Contemporânea. Nesta entrevista, ele destaca os meios de sobrevivência da arte, a adaptação às novas plataformas e de que forma estamos criando uma cultura da intimidade exposta. 
 
Segundo o pesquisador, o espectador passou a ser coparticipante do que é mostrado através das telas e o teatro digital tornou-se "uma arena de discussão, reelaborando as noções do que vem a ser estético, pois a partitura pode não ser sem cortes em tempo real, mas sim fragmentada, distorcida, rearranjada".  
 
Professor Marcelo, a pandemia exigiu que os artistas adaptassem os espetáculos a diversas plataformas on-line. Como vem sendo esse processo? De que forma isso afeta a vida destas pessoas?
 
Considerando o cenário atual de isolamento social provocado pelo coronavírus Sars-CoV-2, no qual as artes, em geral, foram obrigadas a se adaptar ao contexto de distanciamento, impedidas de produzirem seus processos criativos através de relações presenciais, a ideia de Teatro Digital se apresentou como uma possibilidade de grande debate e de potencialidade. Com isso, após o surgimento do vírus, causando milhares de mortes no mundo todo, diversos setores artísticos, profundamente impactados pela proliferação da doença, vêm exercendo papéis relevantes para a conscientização sobre a gravidade da pandemia atual. A arte, em toda a sua amplitude, vem combatendo a desinformação, revelando diferentes contextos avassaladores de crises de saúde pública, bem como criando diferentes produções de denúncias sobre a desigualdade social cada vez mais agravada. 
 
Como acontece o processo criativo neste momento? De que forma o isolamento social afetou a criatividade?
 
O contexto pandêmico atual desloca os processos de criação determinados por tempo e espaço efêmeros para inventar laboratórios experimentais, cujos repertórios são mediados por câmeras de computador, de celulares e por outros artefatos tecnológicos, naturalizando uma cultura de intimidade exposta, já que nossas casas são abertas para os olhares do espectador, cada vez mais inserido em nosso cotidiano, agora mediado por uma tela. As investigações artísticas a partir de diferentes mídias foram soluções parciais encontradas para dar continuidade às criações e à sobrevivência de artistas, companhias, coletivos etc. Sendo assim, tais fatores possibilitam, em parte, a ampliação da pesquisa acerca da arte mediada por diferentes mídias. 
 
Quais são os impactos financeiros na vida de quem tem como fonte de renda as artes?
 
Os setores artísticos estão muito fragilizados financeiramente, já que sempre necessitaram da formação de público e de espectadores contínuos para sobreviver. Agora, com a maioria dos espaços culturais e artísticos fechada, esses setores necessitam se reinventar diante da realidade que se apresenta de forma dura e sem cortes. Em meio a este caos, espetáculos presenciais foram cancelados, artistas ficaram sem remuneração, diferentes espaços nacionais foram fechados, obrigando os profissionais a se reinventarem diante do esvaziamento de políticas públicas adequadas para o enfrentamento da situação atual. O direcionamento de diversos trabalhos foi voltado para a pesquisa em redes de artes não presenciais, acentuando a tomada de espaços virtuais por artes que até então só se imaginava existir a partir da aproximação física. Com isso, houve a interrupção brusca das atividades artísticas ditas presenciais para a expansão de ações artísticas movidas pela virtualidade da cena.
 
Mesmo com as dificuldades, de que modo as plataformas on-line contribuem para que mais pessoas tenham acesso às artes no geral?
 
Nestes tempos pandêmicos, há uma urgência em se discutir as políticas do cotidiano, dos espaços internos e dos lugares íntimos, caminhando contra uma ideia sedimentada de arte. Isso permite o movimento de elementos próprios de criação do artista, agora expostos virtualmente em cena para que não só a narrativa seja dada ao espectador, mas o corpo do artista seja entregue, desnudado por uma tela. Evidentemente, a ideia de vinculação entre teatro e tecnologia não é algo novo, pois o teatro contemporâneo se apresenta como um espaço de experimentação interdisciplinar, na busca de interface entre as artes plásticas, as artes audiovisuais, os aparatos tecnológicos, a dança etc. Então, o teatro digital se concretiza a partir dos processos de filmagem, de montagem, de edição e de exibição ao público através de uma série de plataformas virtuais, sendo distribuída em uma infinidade de redes sociais. Paradoxalmente, ela ainda se apresenta dentro de um circuito artístico discreto, autoral — ainda mais se for comparada às outras áreas artísticas audiovisuais, como o cinema —, mas vem ampliando suas formas de acessibilidade a partir de estudos acadêmicos na área, de diferentes investigações artísticas e de novas formas de propagação audiovisual ao longo das últimas décadas.
 
Como tornar o público mais presente e interativo nas plataformas?
 
Aceitamos a nossa artesania em relação ao cinema e abrimos as nossas casas a partir das plataformas digitais onde mostramos os ruídos, os sons externos, os erros, as passagens. Abrimos os nossos lares. Deixamos que nossas casas sejam invadidas, revelando todas as suas rachaduras. Transformamos o espectador em testemunha da obra, em coparticipante do que mostramos através de nossas telas. Ampliamos a consciência ao percorrermos diferentes caminhos. Oferecemos chaves de leitura para acessar as obras através de uma tela. Então, o teatro digital se torna uma arena de discussão, reelaborando as noções do que vem a ser estético, pois aqui a partitura pode não ser sem cortes em tempo real, mas sim fragmentada, distorcida, rearranjada. O seu corpus de investigação reinventa conteúdos, gerando novas leituras aos olhares já habituados. Isto gera um desafio ao espectador, pois o mesmo precisa desalojar uma ótica usual de leitura acerca da coreografia esperada, com clímax desejado e com finalizações normatizadas. Aqui há um gerador de fluxos plurais, cujas motivações não são meramente registradas como arquivos de uma encenação, mas ela redimensiona os contextos espacial, sonoro e de movimento, apresentando outros paradigmas nas dinâmicas estéticas e sinestésicas da arte.
 
Qual a importância da arte em um momento em que a saúde mental também se tornou pauta?
 
Gostaria de trazer um pequeno trecho, um pequeno fragmento de uma obra literária de que gosto muito, que se chama "A sobrevivência dos Vagalumes", de Didi-Huberman. O autor inicia seu texto perguntando: "os vaga-lumes desapareceram todos, ou eles sobreviveram, apesar de tudo?" Ele vai dizer que os movimentos sensuais dos vagalumes, tentando atrair seus parceiros a partir do eterno acender e apagar de seus corpos, são momentos únicos e efêmeros que se arrepende de nunca ter conseguido fotografar. O autor começa a dizer que os vagalumes haviam desaparecido de Roma, do centro da cidade, artificialmente iluminada, com luzes a piscar de forma exorbitante. Os vagalumes, então, fugiram da cidade, pois se perderam em meio a tantas luzes, deixando de atrair, de se manifestar, de mostrar sua exuberância. Didi-Huberman compara os vagalumes à arte, às construções artísticas, pois, para ele, as artes são pequenos lampejos de luz na escuridão. São pequenos fragmentos, frestas, rachaduras em meio aos tempos de omissão, de falso moralismo e de tentativas sucessivas de barrar, de eliminar, de censurar a arte. É assim que a arte racha o asfalto, a arte sobrevive respingando e soltando seus pequenos feixes de luz na escuridão.
 
EM DISCUSSÃO - Esta seção é ocupada por uma entrevista, no formato pingue-pongue, realizada com um integrante da comunidade ufopiana. O espaço tem a função de divulgar as temáticas em pauta no universo acadêmico e trazer o ponto de vista de especialistas sobre assuntos relevantes para a sociedade. Confira todas entrevistas já publicadas. 
 
Veja todas as entrevistas publicadas. 

 

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