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A crise hídrica e energética no Brasil

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A falta de planejamento e de estratégias para enfrentar os problemas hídricos no Brasil ao longo dos anos pode explicar o atual risco de apagão e de racionamento de energia e água na maioria das regiões do país. Assim como ocorreu na crise hídrica e energética de 2001, a situação pode causar reflexos em todos os segmentos sociais. 
 
Embora as crises de água façam parte de um ciclo, a falta de chuvas agrava o problema. Os caminhos para evitar que a população seja totalmente afetada passam por políticas sustentáveis e planejamentos ambientais, como explica o entrevistado desta semana para o "Em Discussão", o professor Alberto de Freitas Castro Fonseca, do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), doutor em Desenvolvimento Sustentável pela University of Waterloo, do Canadá. 
 
A conta da falta de investimentos em políticas energéticas demora a chegar, e o Brasil paga agora a conta dos últimos 20 anos, alerta o professor, enfatizando que a questão climática também é um elemento essencial quando se fala em escassez de água. "É provável que a gente enfrente uma mudança climática catastrófica. Não vamos acabar com o planeta, vamos alterá-lo radicalmente e tornar muito cara a manutenção dos nossos hábitos de consumo e do nosso padrão civilizatório". 
 
Professor Alberto, o Brasil passa por uma das piores crises hídricas desde o "apagão" de 2001. Este seria o resultado somente da falta de chuvas ou houve falta de ação governamental em políticas energéticas e gestão hídrica?
 
Eu não sei se é uma das piores desde 2001. É difícil comparar as escassezes hídricas porque elas nunca são iguais, elas acontecem de forma distinta, mas o fato é que a natureza é cheia de ciclos e é difícil explicar o comportamento do clima e do ciclo hidrológico. O que a gente sabe é que sempre há períodos de escassez. Então, é ingênuo esperar que não tenhamos escassez de cinco em cinco ou de 15 em 15 anos. O nosso problema é de interação com esses ciclos naturais. Não adianta ter políticas energéticas e gestão hídrica se temos uma política de destruição do território. O Brasil, consistentemente, ano após ano, desmata e reduz a quantidade de água superficial continental. Ou seja, nós estamos interferindo no ciclo hidrológico, nós estamos tornando algo que é natural em pior. Então, o problema não é a falta de chuva, o problema é o agravamento da escassez natural de água.
 
A energia elétrica no nosso país é gerada majoritariamente por hidrelétricas. A extinção do horário de verão em 2019 pode ter intensificado o problema que enfrentamos atualmente por causa da crise hídrica?
 
Provavelmente, não. É muito difícil que o horário de verão tenha causado isso. Isso é muito provavelmente um acúmulo de culpas, muita coisa não foi feita desde [o governo] Fernando Henrique. Nós estamos, repito, em uma trajetória de destruição do território. Hoje nós monitoramos por imagem de satélite a cobertura de água no Brasil e sabemos que a gente está alterando o solo de uma forma tal que a água superficial não fica na superfície, ela vai para o subsolo ou escorre para o oceano. A água no planeta é sempre a mesma, mas a gente está alterando a disponibilidade dela, então está ficando mais caro ter acesso e estamos diminuindo a água para geração de energia elétrica. Isso não é de 2019 para cá, é desde sempre. A história do Brasil é uma história de uso descuidado da natureza. Não adianta querer atribuir isso ao horário de verão. 
 
As políticas ambientais praticadas pelo governo federal, como a diminuição da fiscalização, que consequentemente tem permitido o aumento do desmatamento e das queimadas, influenciam na escassez de água neste momento?
 
Certamente a incompetência para gerenciar as instituições ambientais tem sim precarizado os controles ambientais e influencia na escassez de água. Cada desmatamento tem uma relação direta com a retenção de água em mananciais. Então é óbvio: se você tem uma política que leva ao desmatamento, você tem uma política que leva à redução de água. O que nós estamos vendo hoje é mais culpa de gestões anteriores. O que está sendo feito desde 2019 vai gerar efeitos mais lá na frente. Os efeitos ambientais demoram.
 
A adoção de outros modelos de geração de energia limpa pode diminuir o impacto na crise energética e hídrica no futuro?
 
Absolutamente, sim. É muito provável que os bons cientistas estejam corretos e que as previsões deles se concretizem. Na verdade, já tínhamos previsões desde a época de 1980. As leituras empíricas do clima têm mostrado que as previsões estavam até subestimando os efeitos. É provável que a gente enfrente uma mudança climática catastrófica. Nós não vamos acabar com o planeta, nós vamos alterá-lo radicalmente e tornar muito cara a manutenção dos nossos hábitos de consumo e do nosso padrão civilizatório. Os partidos verdes são poderosíssimos nos países que entendem isso melhor do que a gente. O noticiário do Canadá é debate climático todos os dias. O brasileiro, seja de esquerda ou de direita, de maneira geral, não prioriza esse tema. E, portanto, o Brasil tem sido lento nas ações de transição energética. É uma questão de sobrevivência do nosso estilo civilizatório. Fazer uma transição energética significa que nós temos que, ano após ano, extrair menos óleo e gás natural da crosta terrestre.
 
Caso não ocorram mudanças significativas relacionadas aos recursos hídricos e na área ambiental como um todo, "fenômenos naturais" como tempestades de poeira e rios secos podem ser mais frequentes?
 
Não podem, serão mais frequentes. O problema é climático. Nós temos que mudar a matriz energética, é simples assim. A sociedade não entende o modelo causal, os modelos climáticos são muito complicados. Então as pessoas começam a ficar achando argumentos para politizar as coisas. 
 
O mundo inteiro está de olho no Brasil por causa da destruição dos nossos biomas. Como essas lideranças externas podem ajudar a melhorar esse cenário atual?
 
Quando falamos destruição dos biomas, é a destruição do Brasil. Nós estamos destruindo o território brasileiro. Como a nossa economia vem de fora, se eles (outros países) condicionarem a compra de uma série de produtos a questões ambientais, a gente pode ter um incentivo. As lideranças externas podem pressionar mudanças de comportamento internas. Não tem uma bala de prata, nós precisamos dessa pressão, mas precisamos de muito mais. A coisa está pegando, é uma questão de tempo, vai só piorar o meio ambiente, vai só aumentar a pressão interna e externa e, quanto tempo mais demorarmos, pior será para nós mesmos. 
 
Nós somos uma "powerhouse", uma potência ambiental. O Brasil, ao invés de tirar proveito dessa vocação, tem tentado justificar para a comunidade externa que chegou a nossa vez de desmatar e poluir. Eu tenho ouvido muito esse argumento: "tem muita mata ainda no Brasil". O que significa isso, que ainda tem muito para desmatar? É verdade, sobrou, em comparação com os Estados Unidos e a Europa, sobrou muita área natural. Mas as áreas naturais na Europa estão aumentando, coberturas de floresta aumentam. No Brasil, é uma tragédia, diminui. Nós estamos em uma tendência, nítida, pacífica de destruição do território, e tem países que estão em uma tendência de melhoria do território. Então, não adianta tirar uma fotografia e falar "nós temos um bioma tanto preservado", ele está sendo degradado e nós temos que tentar reverter essa degradação. A gente poderia fazer isso de uma forma inteligente, estimulando uma economia diferente, com outros produtos.
 
EM DISCUSSÃO - Esta seção é ocupada por uma entrevista, no formato pingue-pongue, realizada com um integrante da comunidade ufopiana. O espaço tem a função de divulgar as temáticas em pauta no universo acadêmico e trazer o ponto de vista de especialistas sobre assuntos relevantes para a sociedade. 
 
Confira todas as entrevistas já publicadas.

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