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Desafios e conquistas na pesquisa, pós-graduação e inovação

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"Muito foi feito na Universidade. Muito foi feito na pesquisa. Saímos de um cenário em que não se conhecia nada sobre o coronavírus para um volume significativo de conhecimento gerado em todas as áreas do conhecimento". A afirmação é da pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), professora Renata Guerra de Sá Cota, que participa do "Em Discussão" desta semana. Ela traz as expectativas para 2022 e faz uma retrospectiva da pesquisa, da pós-graduação e da inovação na UFOP durante a pandemia. 
 
Renata assinala que conhecimentos de gerenciamento, força de vontade de docentes, técnicos e estudantes e muita criatividade para viabilizar as diferentes demandas nestes quase dois anos de pandemia foram alguns dos atributos para que as atividades de pesquisa, pós-graduação e inovação não fossem suspensas. Outro desafio foi a manutenção das atividades de pós-graduação e das bolsas, sem que ocorresse atraso no calendário acadêmico, e o trabalho seguro nos laboratórios, sempre acompanhando os protocolos de segurança. Entretanto, para ela, a gravidade do cortes de recursos e bolsas de pesquisa que ocorreram neste período não ganhou a visibilidade merecida. 
 
Como exemplo do papel que a UFOP presta à sociedade, a pró-reitora destaca o credenciamento para a UFOP integrar a RedeLab Covid-19, que permitiu o início dos testes de Covid-19 no Laboratório de Imunopatologia do Núcleo de Pesquisa em Imunologia (Nupeb). Na inovação, Renata cita o credenciamento da Unidade Embrapii UFOP como o melhor exemplo do modelo de inovação tecnológica. Ela avalia que com a interação universidade-empresa-governo a inovação tecnológica promove o desenvolvimento econômico e social, uma consequência natural da pesquisa científica e tecnológica. Nesse caso, o resultado é explorar e avançar nas pesquisas na área de Mineração, onde a UFOP é referência nacional e internacional.
 
Professora Renata, quando as atividades presenciais foram interrompidas, nem todas as pesquisas puderam ser suspensas. O que a Proppi fez para garantir a continuidade desses trabalhos e a segurança dos pesquisadores envolvidos?
 
Quando as atividades presenciais foram suspensas na UFOP, em março de 2020, a Resolução Cepe nº 7.891 permitiu a continuidade das atividades dos cursos de graduação e pós-graduação. A Proppi, em sintonia com a Câmara de Pós-Graduação, iniciou os trabalhos para viabilizar as defesas, qualificações e processos seletivos de forma remota. O planejamento da pró-reitoria se iniciou com uma consulta aos colegiados dos Programas de Pós-Graduação (PPGs), juntamente com reuniões remotas com coordenadores de curso, o que possibilitou a construção coletiva da resolução para a retomada das aulas remotas da pós-graduação stricto e lato sensu. Também foi realizado o levantamento das condições de trabalho e estudo, sobretudo, dos estudantes em situação de vulnerabilidade social e econômica.
 
Essas ações viabilizaram a manutenção dos PPGs da UFOP e suas atividades, inclusive os processos seletivos de ingresso nos cursos de mestrado e doutorado, bem como nos cursos de especialização e residência médica. Todas essas medidas foram tomadas para que não houvesse atraso no calendário acadêmico da pós. Também tomamos as providências para que as bolsas não deixassem de ser pagas.
 
Para o funcionamento dos laboratórios os coordenadores de projetos e/ou laboratórios devem dar ciência do retorno das atividades presenciais às Comissões de Segurança Laboratorial das Unidades (CSLUs). A Comissão Institucional de Segurança Ocupacional Laboratorial (Cisol) tem como um de seus objetivos fornecer apoio, orientação e acompanhamento junto aos coordenadores de laboratório no retorno às atividades, no que tange aos aspectos de segurança. Os pesquisadores também devem acompanhar as indicações do Comitê de Enfrentamento ao Coronavírus da UFOP.
 
Cabe ressaltar que algumas áreas ainda estão muito comprometidas, como as que dependem de trabalho de campo para coleta de amostras. Entre estas, estão as atividades ligadas aos PPGs em Evolução Crustal e Recursos Naturais, Engenharia Ambiental e Ecologia de Biomas Tropicais. A pesquisa em Artes Cênicas é um outro exemplo. Transmitir emoção sem toque, manifestar a arte sem corpo são alguns dos desafios que a pandemia trouxe.
 
Por fim, mas não menos importante, por mais que tenhamos lançado mão de várias estratégias para minimizar o impacto da pandemia e do isolamento social, acredito que um dos pontos críticos, responsável pelo sucesso dos alunos na pós-graduação, é a qualidade da orientação e da relação orientador-orientando. Construir essa relação no cenário de tanta insegurança é desafiador para ambas as partes. O pós-graduando precisa desenvolver a sua concepção própria do que seja um trabalho acadêmico de tese ou dissertação e de como se posicionar diante de uma banca, e, para isso, o contato presencial com o orientador tem um papel chave.
 
Desde o início da pandemia, a UFOP realizou importantes pesquisas relacionadas ao combate do coronavírus. Qual balanço você faz desse período?
 
Estamos há 22 meses com as atividades presenciais suspensas. Saímos de um cenário em que não se conhecia nada sobre o Sars-CoV-2 e a Covid-19 e hoje geramos um volume significativo de conhecimento na área. Nesse período, foram realizadas pesquisas em várias áreas do conhecimento na UFOP, e uma parte do que produzimos foi apresentado em uma sessão especial do Encontro de Saberes de 2021. Eu quero aqui também registrar que muitas pessoas pensam que nada foi desenvolvido pelas UFOP nesse período de tempo. Este é um espaço para esclarecer que não. Fizemos muito. A Universidade faz parte de um universo muito maior de atividades, formado também pela pesquisa, inovação tecnológica e empreendedorismo tecnológico, que têm auxiliado a nossa região no enfrentamento da pandemia. Também é importante lembrar que quando se enfraquece o desenvolvimento científico nas universidades, como estamos vivendo nestes últimos anos, estamos perdendo a chance de encontrar e desenvolver soluções para inúmeros problemas da sociedade.
 
Uma das ações de destaque nesse período foi o credenciamento para a UFOP integrar a RedeLab Covid-19, o que permitiu o início dos testes no Laboratório de Imunopatologia do Núcleo de Pesquisa em Imunologia (Nupeb). Com isso a UFOP presta um papel importante para a sociedade. Quais os ganhos para a Universidade com essa ação?
 
Tanto o credenciamento como a realização do diagnóstico molecular da Covid-19 por meio da técnica de RT-PCR, sem sombra de dúvidas, representaram avanços fundamentais para a contenção da doença. Além disso, é digno de nota o empenho pessoal da equipe de profissionais, incluindo docentes, técnicos administrativos e discentes que trabalharam como voluntários nessa ação e se desdobraram para que os resultados fossem entregues no menor tempo possível. Foram mais de cinco mil exames e por diversas vezes as atividades foram suspensas devido ao término dos insumos cedidos pelo estado. Esse é um exemplo de como a UFOP cumpre sua missão enquanto universidade pública que deve servir à sociedade e gerar conhecimento. A UFOP, assim como todas as universidades públicas, é indispensável para o nosso país superar a Covid-19. Eu espero que essa ação, a longo prazo, seja um exemplo transformador da nossa sociedade no que diz respeito à importância da universidade pública no Brasil.
 
Em 2021, a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação mudou de nome e passou a carregar também a inovação como identificação. O que mudou com essa inclusão na pró-reitoria, ao se tornar Proppi? Na prática, o que essas mudanças trouxeram? Podemos esperar novidades no Núcleo de Inovação Tecnológica e Empreendedorismo (Nite)?
 
Na realidade, existe uma grande mudança. Ao carregar também a inovação no nome estamos sinalizando para a comunidade ufopiada e também para a sociedade que a UFOP está mais preocupada em transformar o conhecimento gerado em seus laboratórios de pesquisa em produtos, processos ou serviços que tragam mais qualidade de vida aos cidadãos brasileiros. E, nesse sentido, a primeira inovação que a Proppi trouxe em 2021, e pretende intensificar durante o próximo triênio, é estimular em sua comunidade a cultura de cooperação com o setor produtivo e o desenvolvimento de pesquisa aplicada que envolva contratos, termos de sigilo e restrições quanto à publicação de resultados. Sabemos que essa não é uma tarefa simples, especialmente pela característica burocrática das universidades brasileiras, mas entendemos que esse é o futuro. Nesse sentido, o credenciamento da Unidade Embrapii UFOP é o melhor exemplo do modelo da Triple Helix de inovação tecnológica de interação universidade-empresa-governo. A inovação tecnológica promove o desenvolvimento econômico e social, que por sua vez é uma consequência natural da pesquisa científica e tecnológica, e, especificamente nesse caso, irá explorar e avançar nas pesquisas na área de Mineração, na qual a experiência da UFOP é referência nacional e internacional.
 
A equipe do Nite está motivada para desenvolver as ações fundamentais para implementar a Política de Inovação da UFOP e as duas propostas recentemente aprovadas nas chamadas Fapemig, intituladas "Fortalecimento  do Núcleo de Inovação Tecnológica e Empreendedorismo da Universidade Federal de Ouro Preto" e "Incultec: ecossistemas de inovação, empreendimentos e empreendedorismo da UFOP". Esses projetos permitirão, para o triênio 2022-2025, várias ações para estimular o ambiente inovador.
 
Por fim, neste momento particular do pós-pandemia, estimular a cultura de inovação e empreendedorismo de alunos e professores da UFOP, tendo como finalidade, em associação com as empresas, o desenvolvimento de produtos e processos tecnológicos que venham a atender aos problemas reais da região onde a UFOP está presente, é de suma importância para a retomada do desenvolvimento socioeconômico, e tanto a Incultec quanto o Inconf.Tech poderão ser usados como espaços para empoderar nossos fazeres locais, incentivando a economia criativa.
 
A UFOP, como outras universidades federais, tem sofrido cortes cada vez mais significativos no orçamento destinado às pesquisas. Como essas reduções podem afetar as pesquisas da Universidade?
 
Para fins de uma reflexão que julgo urgente, precisamos "olhar para trás" e entender as condições em que as universidades federais foram criadas no Brasil. Indiscutivelmente, esse é um debate bastante complexo e também contraditório, afinal, a nossa Constituição (de 1988) garantiu, dentre outras coisas, a autonomia universitária, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão e a sua gratuidade. Então, em tese, não deveríamos viver esse problema. Entretanto, do meu ponto de vista, somente no período entre 2005 a 2015 observamos uma expansão do Ensino Superior no Brasil. Infelizmente, hoje nosso cenário é outro. Segundo dados da Associação Nacional Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), os investimentos executados em 2021 foram menores do que os de 2010 (foram 4,5 bilhões em 2021 e 5,6 bilhões em 2010). Na prática, hoje, os recursos são suficientes apenas para as despesas básicas, como contas de água, luz, contratos com empresas de segurança. Então o apoio a pesquisa e inovação fica totalmente inviabilizado. Como bem disse António Joaquim Severino ("Pesquisa, pós-graduação e universidade". Revista da Faculdade Salesiana, Lorena, v. 24, n. 34, p. 60-68, 1996.), "o professor precisa da prática da pesquisa, para ensinar eficazmente; o aluno precisa dela, para aprender eficaz e significativamente; a comunidade precisa da pesquisa, para poder dispor de produtos do conhecimento; e a Universidade precisa da pesquisa, para ser mediadora da educação." Portanto, sem pesquisa não existe universidade.
 
A falta de recursos para pesquisa, principalmente com o corte de bolsas de pós-graduação, mostra o descaso com a ciência no Brasil. As universidades públicas são sempre afetadas. Isso abala a confiança na carreira acadêmica?
 
Eu não consigo enxergar o progresso da humanidade sem ciência, da mesma forma que não existe ciência sem investimento. Então, o corte sistemático, como estamos observando no Brasil em comparação com outros países do mundo (por exemplo, a porcentagem de investimento do PIB brasileiro em ciência – 1,26% – é inferior à média mundial – 1,79%), somado às questões trabalhistas, gera uma grande insegurança no sistema como um todo. Também é digno de nota o valor das bolsas de pós-graduação, que não têm reajuste desde 2013 e são de R$ 1.500,00 e R$ 2.200,00, respectivamente, para mestrado e doutorado. Por outro lado, a UFOP, juntamente com as demais Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes), por meio de suas gestões e da voz que possuem em diferentes espaços, lutam pela qualidade e excelência na formação de recursos humanos de alto nível no país, bem como em defesa da ciência, das pesquisas, do desenvolvimento tecnológico e da inovação, que certamente irão trazer o desenvolvimento para nosso país.
 
Estamos vendo também o sucateamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o que afeta diretamente os cursos de pós-graduação. Como vai ser o ano de 2022 para a pesquisa, diante desse quadro?
 
Essa é uma situação que dificilmente ganha visibilidade, apesar de sua gravidade e da atuação praticamente semanal de entidades como Andifes, COPROPP, FOPROPP, Sociedade para o Progresso da Ciência, dentre outras, durante os últimos três anos. Até o momento, pautas importantes, tais como a regulação do Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), a retomada e conclusão do processo da Avaliação Quadrienal (2017-2020) e a reversão dos cortes no PLOA 2022 em prol da educação, ciência, tecnologia e inovação e do cumprimento de dispositivo constitucional quanto ao descontingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), precisam avançar. Passar mais um ano de indefinições é, sem dúvida, tornar a situação ainda mais precária, o que acredito ser um consenso coletivo na academia. Estou esperançosa de que essas e outras questões serão bem encaminhadas durante este ano.
 
Chegamos a janeiro com a perspectiva do retorno presencial integral em março. Qual a expectativa da Proppi para esse retorno?
 
Desde março de 2020 que a Proppi vem se adaptando à nova realidade, que trouxe grandes desafios. Ao longo desse tempo, toda a estrutura administrativa da pró-reitoria foi adaptada e os processos remodelados para atender às demandas de pesquisa, pos-graduação e inovação da UFOP. Por outro lado, as tecnologias da informação ficaram mais presentes no dia a dia dos técnicos administrativos, docentes e discentes. Sou defensora da manutenção do ensino e da pesquisa de qualidade e da importância da ampliação das atividades presenciais. Ressalto que as atividades de pesquisa, pós-graduação e inovação não foram interrompidas e, ao longo desses 22 meses, coordenadores de curso, discentes, docentes e técnicos administrativos uniram conhecimentos gerenciais, força de vontade e muita criatividade para viabilizar as diferentes demandas inerentes a todo o processo. Estou otimista com a volta, mas não podemos perder de vista que a ampliação das atividades presenciais, conforme aprovada pelo Conselho Universitário da UFOP, estão baseadas em: biossegurança, imunização da comunidade universitária e evolução da pandemia nas cidades onde a Universidade tem sede. "Impressibilidade" é o que a pandemia vem nos ensinando, portanto, o momento ainda pede muita cautela para que possamos voltar presencialmente não somente às atividades administrativas, ao ensino, à pesquisa e à extensão, mas ao convívio diário, que tem a capacidade de nos transformar em seres humanos melhores. Mas isso precisa acontecer de forma segura. Desde o princípio, as ações da Proppi foram para priorizar "salvar vidas", e assim continuaremos.
 
EM DISCUSSÃO - Esta seção é ocupada por uma entrevista, no formato pingue-pongue, realizada com um integrante da comunidade ufopiana. O espaço tem a função de divulgar as temáticas em pauta no universo acadêmico e trazer o ponto de vista de especialistas sobre assuntos relevantes para a sociedade. 
 
Confira todas as entrevistas publicadas. 

 

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