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O cenário de riscos geológicos iminentes em Ouro Preto

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Ouro Preto se encontra em um cenário geológico complexo, com riscos que precisam ser abordados urgentemente e de forma abrangente, tendo em vista a herança histórica e arquitetônica da cidade. Localizada em uma região caracterizada por relevo montanhoso e solos sensíveis a movimentos de massa, a cidade revela uma interação constante entre a atividade humana e os processos naturais. Assim, a compreensão e a gestão desses riscos não apenas contribuem com a sustentabilidade e o planejamento do desenvolvimento urbano, como também desempenham um papel vital na proteção do patrimônio cultural e na manutenção da segurança dos habitantes.
 
A peculiaridade geológica da região traz desafios intrínsecos, como a possibilidade de deslizamentos de terra, as erosões e a instabilidade das encostas. Diante da importância das construções históricas e da densa ocupação urbana, torna-se essencial uma abordagem adequada dos riscos geológicos, para garantir a proteção do patrimônio, a segurança dos moradores e a planificação de um crescimento sustentável.
 
Para conversar sobre esse cenário, o "Em Discussão" desta semana traz o professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Mateus Oliveira Xavier. Graduado em Engenharia Civil pela UFOP, Mateus Xavier é mestre e doutorando em Geotecnia pelo Núcleo de Geotecnia Aplicada da Escola de Minas (NUGEO).
 
O que caracteriza as principais situações de risco geológico e quais são as mais frequentes na região de Ouro Preto?
 
A principal característica do risco é a ocupação de áreas naturalmente suscetíveis aos escorregamentos. Em áreas suscetíveis aos movimentos de terra, o potencial de risco é reduzido quando não há ocupação na região ou pessoas expostas a possíveis danos causados por escorregamentos. Isso ocorre porque o nível de risco está intrinsecamente ligado à avaliação dos danos que podem ser provocados.
 
Além do risco, temos que trabalhar com a suscetibilidade, ou seja, a predisposição natural para a ocorrência de escorregamentos. Em Ouro Preto, algumas características locais podem definir a suscetibilidade a escorregamentos, tais como morfologia, geologia e o formato como se deu a ocupação urbana.
 
Como a formação geológica da região influencia nos riscos de deslizamentos de terra e quedas de rochas? Existem áreas específicas em Ouro Preto que são mais suscetíveis a deslizamentos?
 
A geologia é um dos principais fatores que influenciam na suscetibilidade aos escorregamentos de massa. Muitos trabalhos a consideram como o principal, outros tratam a topografia como principal fator. No caso de Ouro Preto, a formação geológica da região é bastante suscetível. Aqui há diversas formações, como xisto, itabirito e filito, que são rochas altamente suscetíveis aos escorregamentos. Além disso, são rochas com foliação, ou seja, que possuem estrutura em camadas.
 
A foliação das rochas pode ser comparada, de maneira ilustrativa, a uma pilha de papel organizada. Quando observamos uma pilha de papel, muitas vezes notamos que as folhas estão alinhadas em camadas sobrepostas de maneira ordenada. Cada folha de papel é como uma camada individual na pilha. Da mesma forma, nas rochas foliadas, os minerais que as compõem se alinham em camadas ou folhas, criando uma estrutura organizada. Essas camadas podem ser finas, como as páginas de um livro, ou mais espessas, dependendo das condições geológicas em que a rocha se formou. Muitos escorregamentos acontecem justamente entre essas camadas de foliação e na direção em que elas se encontram inclinadas.
 
Em Ouro Preto, especificamente na serra de Ouro Preto — região do Bairro Taquaral, acima do Centro Histórico —, a foliação está voltada para a região Sul, que é onde tem a ocupação do distrito-sede. Então, qualquer corte e ocupação irregular pode favorecer um alívio de tensões nessas camadas foliares das rochas e os escorregamentos podem acontecer. Esses alívios de tensões também acontecem nos períodos chuvosos e é por isso que nesses períodos a gente tem uma concentração maior de escorregamentos. Apesar de todos os bairros do distrito-sede possuírem registro de escorregamento, os grandes eventos acontecem principalmente na região da serra de Ouro Preto, devido à litologia, à topografia muito inclinada da região e à foliação das rochas que estão voltadas para a região de ocupação da encosta.
 
Em que nível a prática da mineração interfere na estabilidade dos terrenos em Ouro Preto? De que modo as práticas de construção e urbanização podem aumentar ou diminuir os riscos geológicos na região?
 
A mineração atual tem regramentos e legislações que ela tem que respeitar, então ela não tem uma relação direta com os escorregamentos que acontecem na área urbana da cidade. Porém, Ouro Preto passou pelo Ciclo do Ouro, em que tivemos muita mineração irregular e parte do material que era retirado da Serra de Ouro Preto eram despejados sem cuidado e controle nas proximidades. Esses locais tiveram um grande depósito de material que está solto, que acaba se movimentando com o passar do tempo. Com isso, acontecem alguns movimentos na região onde era desenvolvida essa atividade irregular de mineração lá do Ciclo do Ouro. Porém, com a ocupação na serra de Ouro Preto, por ser um local com pouca resistência, muitas casas acabam se movimentando, devido ao material solto nessas regiões.
 
O tipo de edificação, por sua vez, tem relação direta com o risco. Por exemplo, se você possui uma edificação com um padrão construtivo e materiais de alta qualidade, mesmo que essa casa esteja localizada em uma região com maior suscetibilidade à ocorrência de escorregamentos, é provável que ela sofra danos menores caso ocorra um incidente. Portanto, essa edificação tem um risco menor. Assim, conseguimos correlacionar os tipos de edificações com o risco que elas têm frente a um escorregamento. Infelizmente, as edificações que estão em áreas de risco normalmente possuem uma baixa qualidade construtiva, o que aumenta o potencial de dano.
 
Algumas práticas de ocupação devem ser abordadas com cautela. Por exemplo, a ocupação irregular equivale a se expor ao risco, pois, ao optar por essa ocupação, aceita-se conscientemente a possibilidade de ocorrer escorregamentos no local. Portanto, por si só, essa prática já deveria ser evitada. Além disso, é importante considerar a construção em áreas de canais de drenagem. Aqui, não estou me referindo apenas aos rios, mas também a situações em que o escoamento da água durante chuvas segue trajetórias específicas. Se uma construção ocorre em uma dessas trajetórias preferenciais, há uma obstrução da passagem natural da água. Isso leva ao acúmulo de água, o qual pode resultar em escorregamentos. A ocupação de áreas de drenagem, portanto, aumenta o risco para as edificações e para as pessoas que residem nessas áreas.
 
Além das questões de infraestrutura e segurança, como os riscos geológicos impactam o cotidiano da população e a economia local?
 
Isso pode acarretar outros problemas básicos, como o não fornecimento de produtos básicos para a população da cidade ou a não chegada de combustível devido à problemática da obstrução de vias e rodovias. Os produtos podem até aumentar de valor por conta dessa dificuldade da mercadoria chegar à cidade. Além disso, o medo dos turistas em relação ao escorregamento nas regiões da cidade pode acabar afastando-os da região. A exemplo do escorregamento no Morro da Forca — acredito que aquilo pode ter diminuído e comprometido o turismo naquela época do ano na cidade. O mesmo aconteceu na rodoviária do município, que, do meu ponto de vista, foi pior, porque ali é o ponto onde tanto turistas quanto a própria população transitam constantemente, afetando assim seu cotidiano. 
 
Além disso, a possibilidade do risco gera muito pavor na população. Quando acontece uma chuva forte, a população, já atenta aos escorregamentos, normalmente não consegue nem dormir direito. Então, o poder público tem que atuar nessas regiões para que elas não sejam ocupadas, além de atuar na verificação, averiguando se tem necessidade de obra de contenção e outras obras preventivas.
 
Qual a importância de programas educacionais e campanhas para informar os residentes e turistas sobre os riscos geológicos?
 
A importância dos programas educacionais e dessas campanhas é realmente significativa. Eles desempenham um papel crucial ao capacitar os moradores a identificar potenciais riscos em seu entorno. Por exemplo, imagine que você perceba que água está escorrendo de um talude específico e essa água está um pouco suja, transportando algum material. Se você souber reconhecer esse sinal e compreender como ele se relaciona com sua vida diária, tomará automaticamente a decisão de se afastar dessa área de risco. No entanto, essa capacidade de reconhecimento só é possível quando as pessoas são devidamente informadas, seja por meio de palestras educativas ou campanhas de conscientização.
 
O que poderia ser feito para amenizar os danos atrelados aos riscos geológicos presentes na cidade de Ouro Preto?
 
Há várias opções. A principal delas é o mapeamento do risco. Por meio dele, é possível identificar as áreas com maior e menor potencial de risco. Com base nessas informações, podemos direcionar recursos para a implementação de medidas emergenciais, como obras de contenção, onde são mais necessárias. Além disso, podemos planejar e executar ações educacionais específicas para áreas de menor risco. O mapeamento de riscos fornece uma base sólida para entender mais profundamente a natureza dos riscos em determinada região e, assim, desenvolver estratégias de prevenção mais eficazes.
 
Por outro lado, é possível empregar obras de contenção para amenizar potenciais escorregamentos. No entanto, as obras de contenção apresentam um desafio: elas só são construídas quando identificamos o tipo específico de risco de escorregamento naquela região. O ideal seria não iniciar uma ocupação até que fosse identificado o tipo de movimentação que pode ocorrer em determinada área. A partir desse ponto, poderíamos então prosseguir com estudos para determinar o tipo apropriado de contenção a ser implementada na encosta.
 
EM DISCUSSÃO - Esta seção é ocupada por uma entrevista, no formato pingue-pongue, realizada com um integrante da comunidade ufopiana. O espaço tem a função de divulgar as temáticas em pauta no universo acadêmico e trazer o ponto de vista de especialistas sobre assuntos relevantes para a sociedade.
 
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