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Podcast: popularização e diversidade de informação em um só formato

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Em tempos de discussão sobre o excesso de informações, fake news e confiança nas notícias, uma nova forma de consumo de conteúdo ganha popularidade no Brasil: o podcast. O formato, que alcança públicos em qualquer lugar, de diversas faixas etárias e a partir de várias plataformas, recebeu atenção especial dos brasileiros durante a pandemia. Segundo pesquisa do Ibope, 57% dos brasileiros começaram a ouvir podcast na quarentena.
 
Para entender o fenômeno do crescimento da produção e consumo de podcast, o "Em Discussão" desta semana entrevista a professora do Departamento de Jornalismo (Dejor) Debora Cristina Lopez, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e autora e organizadora de publicações relacionadas aos estudos do radiojornalismo. 
 
Na conversa, a professora aborda o formato sonoro e a relação com o ouvinte. "A narrativa sonora nos é próxima, nos afeta especialmente, é um espaço e um instrumento adequados para apresentar histórias de vida, para dialogar, para acionar e afetar os sujeitos, para nos retirar da zona de conforto, tensionando certezas e questionando privilégios através da contação de histórias". 
 
Na entrevista, Debora apresenta a relação entre rádio e podcast, os modos de criação do formato e sua diversidade, elementos fundamentais que permitiram o crescimento do podcast nos últimos meses.
 
Professora Debora, uma pesquisa realizada pelo Ibope aponta que durante a pandemia 57% dos brasileiros começaram a ouvir podcast. A que você atribui essa popularização do formato?
 
A popularização do podcasting é parte de um movimento maior, de ampliação do consumo de áudio em plataformas digitais. Esse movimento, que não é só brasileiro, ocorre há alguns anos e se intensificou ainda mais na pandemia. Em parte, isso se deve à exaustão de telas e à possibilidade de consumo de conteúdo em paralelo ao desenvolvimento de outras atividades, característica do rádio. O podcasting tem características que facilitam uma diversidade de perfis de consumo. Se por um lado permite consumo em mobilidade, por outro, facilita a personalização através da exploração dos algoritmos, das indicações e da formação de playlists. Assim, o ouvinte não depende de uma programação linear, mas organiza seu conteúdo de acordo com suas possibilidades e interesses. A hipersegmentação é, então, fundamental no podcasting. Hoje você encontra produções de uma infinidade de temas e abordagens — de comportamento a informativos, de ficção a ciência, de investigativas a musicais. Essa diversidade permite também segmentar e fidelizar a audiência, que tanto acompanha episódios diários quanto faz consumo em binge listening, maratonado. Podemos dizer que uma das maiores características do podcasting e que, na minha opinião, foi fundamental para a ampliação do consumo durante a pandemia, é sua adaptabilidade — ao público, aos produtores, ao contexto de consumo e às dinâmicas individuais de consumo de cada sujeito. 
 
O podcasting é utilizado como canal para discussão de diversos temas, inclusive como uma ferramenta educativa. Como a popularização do formato e a introdução de temas relevantes para a sociedade contribuem para uma boa formação de alunos e cidadãos?
 
O podcasting, mesmo que não o de caráter educacional, tem grande potencial educativo. A pandemia revelou muito isso, principalmente ao explorar com aprofundamento ou com atualidade os temas que afetam a audiência, como a ciência. Todos nós sairemos dessa pandemia sabendo como se dão os processos de desenvolvimento de vacinas e, em nível básico pelo menos, como funciona a difusão do vírus. Isso também se deve aos podcasts de ciência que ouviam especialistas, que explicavam processos, que atualizavam sobre os testes realizados e resultados alcançados. Mas o potencial educativo dos podcasts não reside só na educação mais formal, diretamente vinculada à difusão do conhecimento. Vincula-se também a questões como o debate sobre cidadania, direitos e deveres, marcas culturais e desenvolvimento social. O cidadão, as relações, as afetações políticas do cotidiano e a coletividade — na perspectiva da colaboração e dos deveres compartilhados — foram pautas constantes de podcasts que apostam na comunicação como um espaço de construção coletiva do social, muito presente na podosfera brasileira. 
 
O fato de o podcast ser um objeto sonoro também influencia esse papel de formação de alunos e principalmente de formação de cidadãos. A narrativa sonora nos é próxima, nos afeta especialmente, é um espaço e um instrumento adequados para apresentar histórias de vida, para dialogar, para acionar e afetar os sujeitos, para nos retirar da zona de conforto, tensionando certezas e questionando privilégios através da contação de histórias. Reside aí, mais do que na informação em si, o cerne do podcasting e do rádio. Assim como o rádio, que tanto influencia sua construção narrativa e suas características, o podcasting é próximo e tem um papel social muito marcado. Desta forma, seja na ficção, no jornalismo, no esporte ou no entretenimento, explora questões do cotidiano e discute práticas cidadãs, agindo diretamente na formação dos sujeitos. 
 
Esse formato é capaz de alcançar públicos muito distintos. O que proporciona essa facilidade de alcance?
 
A adaptabilidade e a diversidade de conteúdos são fundamentais. Claro que é preciso considerar as questões tecnológicas. Com o distanciamento (ainda que parcial no Brasil), a conexão à internet era mais estável, assim como a velocidade de conexão era maior do que a móvel. Isso ajuda muito. No início, acreditávamos que a diminuição do deslocamento iria afetar negativamente o consumo de rádio e de áudio de uma maneira geral, mas o contrário ocorreu. As pessoas buscaram mais o conteúdo sonoro — em emissoras de rádio, em podcasts e em produções sonoras inovadoras. Isso porque a criação do hábito de consumo de rádio já vinha se construindo nos últimos anos e com isso a oferta de conteúdos sonoros estava se diversificando.
 
Quando olhamos para a podosfera brasileira percebemos essa mudança. Não se trata somente de um aumento no número de produções realizadas no país, mas também de uma diversificação e de uma complexificação das narrativas apresentadas. Isso é o que garante que o podcasting tenha públicos distintos. Hoje, você pode ouvir podcasts nacionais sobre adestramento de animais domésticos ou sobre política. Pode se atualizar sobre os acontecimentos do país ou saber sobre os biomas de Minas Gerais. Pode escutar sobre ficção científica ou sobre a relação entre sons e música. Pode circular por uma podosfera ativista, engajada em movimentos sociais e na luta por direitos ou consumir entretenimento generalista e humor. Desta forma, a podosfera brasileira contempla a diversidade do seu público potencial, unindo sujeitos de uma audiência que tem interesses comuns e falando de maneira próxima, como é característico da narrativa sonora.
 
Profissionais de diversas áreas se sentem livres para produzir podcasts, até mesmo quem não é do campo da comunicação. De que forma o saber-fazer profissional do produto influencia diretamente no resultado final?
 
A podosfera, como falamos, é um espaço de diversidade temática. Com isso, configura-se também em um espaço de diversidade formativa. Hoje, por exemplo, pode-se acompanhar podcasts de alta qualidade realizados por profissionais de biologia, literatura, física, música, entre vários outros campos do conhecimento. O que é fundamental é saber que se trata de uma produção de comunicação e que isso não quer dizer somente que para fazer um podcast é preciso ter uma boa edição de áudio. O conhecimento necessário é técnico-editorial. É preciso pensar uma identidade, um perfil, o processo de construção do conteúdo — seja ele de um podcast jornalístico ou de entretenimento. Por isso, temos observado o surgimento de agências especializadas na produção desse tipo de conteúdo, como é o caso da Rádio Novelo, que atende a diversos projetos. Com o conhecimento editorial e técnico, é possível pensar o ritmo do programa, sua identidade acústica/visual/editorial, sua organização, suas dinâmicas de circulação, sua adequação ao público pretendido e aos objetivos do projeto. Todos esses são elementos existentes no fazer do comunicador e que precisam ser incorporados ao projetar e realizar um podcast. 
 
Não se trata, portanto, de "ligar o microfone e sair gravando". Trata-se de organizar o conteúdo, de roteirizar, de pensar a composição narrativa, de ter em mente os interesses e o perfil da audiência para, assim, organizar a produção. A produção sonora passa por muitos elementos que vão além da fala em si. Efeitos, trilhas, narração, locução fazem parte do trabalho do comunicador e são tão importantes quanto o conteúdo em si. Particularmente, acredito que a podosfera é o espaço da multidisciplinaridade, em que profissionais da comunicação atuam em colaboração com outros campos do conhecimento, em projetos comuns que buscam afetar direta ou indiretamente a comunidade.
 
O podcast pode ser considerado uma forma mais intimista e que traz proximidade entre ouvinte e apresentador. Essas características são fundamentais no desenvolvimento de um programa de sucesso?
 
Acho complicado buscar traçar fórmulas de sucesso para uma produção. Até porque, como dizíamos, a podosfera é o espaço da diversidade. Então, por exemplo, se você tem um programa informativo, estilo hard news, curto, direto, provavelmente será menos intimista que um programa de entrevistas, uma mesa-redonda ou um podcast narrativo acusticamente complexo. Mas, ainda assim, esse programa informativo guarda em si um intenso interesse público. 
 
Um programa tende a ter sucesso quando tem uma proposta mais claramente definida e quando pensa nas necessidades e características do público. Isso vale para podcasting, para rádio, para televisão... Em comunicação, ter claros os objetivos e o público pretendido é fundamental. A partir daí, vêm as questões mais vinculadas à narrativa sonora e à qualidade do conteúdo de que falávamos antes. Então, é importante ponderar sobre a duração do programa, seu ritmo, sobre a verificação das informações transmitidas, sobre a linguagem adotada, o formato escolhido, sempre tendo em vista o que se pretende e com quem se quer falar. Claro que a relação entre ouvinte e comunicador ou comunicadora é fundamental. Mas ela não necessariamente se estabelece através da perspectiva intimista. Pode também se construir a partir da confiança e credibilidade. Tudo depende das decisões editoriais tomadas quando pensamos a identidade do podcast. Muitas emissoras tradicionais buscam adaptação ao mundo online.
 
O podcast é uma forma de convergência entre rádio e internet? Qual a maior diferença entre as transmissões de rádios abertas e o podcasting?
 
Considero o podcast como parte do rádio contemporâneo. Trabalhe com o conceito de rádio expandido, hipermidiático, ou de ciberrádio: pensará nas adaptações pelas quais o meio passou ao se integrar em uma sociedade comunicacionalmente complexa e mais dinâmica. Esse é o ponto de vista do rádio contemporâneo, mas devemos também considerar que os movimentos não seguem uma mão única. Se a comunicação digital influenciou e alterou o rádio, o contrário também ocorreu. Percebemos em manifestações comunicacionais contemporâneas a marca da narrativa sonora e do fazer radiofônico tradicional. Por exemplo, quando você observa, na podosfera brasileira, o crescimento das produções ficcionais e jornalísticas narrativas, percebe marcas das radionovelas, do radioteatro, dos documentários e séries jornalísticas especiais tão comuns na história do rádio brasileiro. Trata-se de uma revisão, de uma remodelagem que é parte do ciclo de desenvolvimento do meio.
 
Devemos considerar que essas formas de comunicar são afetadas também pelo contexto comunicacional que habitam. Então, as interações da audiência, as plataformas de comunicação, as estratégias e as tecnologias de circulação de conteúdo afetam o que são o rádio e o podcasting. Hoje podemos dizer que temos mais pontos de contato entre rádio e podcasting do que diferenças. Claro, a desconexão do podcasting com a programação em fluxo contínuo e suas consequências, como a restrição de tempo para o programa, a fugacidade, a dependência de transmissão em um horário específico e a inflexibilidade para a construção de uma estratégia de consumo individualizada o diferenciam do rádio. Mas há mais semelhanças que diferenças, como a linguagem sonora, o papel do comunicador/locutor, a atualidade do conteúdo noticioso, entre outras. 
 
A adaptação do jornalismo tradicional para o podcast é um marco das mudanças na comunicação em relação ao modo de transmitir notícias?
 
Vejo o podcast integrado em uma nova forma de fazer jornalismo que vai além dele e que vai além do rádio em si. Trata-se de um jornalismo crítico, que, enquanto busca estar atualizado, busca também analisar, criticar e compreender o contexto da informação e do acontecimento jornalístico. Essa realidade se reflete na força de produções de jornalismo narrativo, como "O Caso Evandro", "Praia dos Ossos" ou "Habitat", e de análise de conjuntura, como "Foro de Teresina" e "O Assunto". 
 
Durante a pandemia, observou-se o crescimento desse tipo de produção e também de produtos informativos, como "UOL News" ou "123 Segundos". Neste tipo de podcast, a interface com o rádio é intensa e as dinâmicas de produção semelhantes — inclusive no que diz respeito ao vínculo temporal com uma grade de programação que a podosfera não impõe. Dessa forma, não podemos colocar no podcast o papel de alteração do fazer jornalístico, mas sim no jornalismo de plataforma e na nova ecologia de mídia, na qual se insere o podcasting. 
 
Em um momento em que tudo se concentra no celular e principalmente na internet, o podcasting pode ter a mesma relevância para esta geração como o rádio teve na primeira metade do século passado?
 
O caráter móvel e principalmente, como dissemos, o caráter adaptável do podcasting, que tem também em sua raiz uma diversidade de sujeitos que produzem a informação, é determinante, no meu ponto de vista, para a sua relação com a audiência. Na podosfera, a hipersegmentação permite atender a interesses variados e facilita a maior abrangência de público. Com o podcasting é possível chegar a públicos antes não atendidos, que não têm uma relação historicamente construída com o rádio e que agora aproximam-se do áudio. Pelo seu caráter misto, de informação, aprofundamento, entretenimento e história de vida, tem potencial de se converter em uma forma de comunicar amplamente difundida e cada dia mais relevante.
 
PODCAST E PODCASTING - Os dois termos são utilizados para se referir ao formato, mas indicam ideias diferentes. A professora explica que podcast é o produto, seja um episódio ou uma série. Por exemplo, o podcast Som e Ciência, do ConJor da UFOP. Produzimos e escutamos podcasts. Já podcasting é o movimento, o fenômeno, as práticas. Envolve a gramática da podosfera, suas formas de circulação e de interação e suas características. É mais amplo e complexo que o próprio podcast. 
 
Confira podcasts produzidos pela UFOP. 
 
EM DISCUSSÃO - Esta seção é ocupada por uma entrevista, no formato pingue-pongue, realizada com um integrante da comunidade ufopiana. O espaço tem a função de divulgar as temáticas em pauta no universo acadêmico e trazer o ponto de vista de especialistas sobre assuntos relevantes para a sociedade.
 
Confira todas as entrevistas já publicadas. 

 

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