Quatro estudantes do curso de Engenharia Geológica da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) estão entre os finalistas do Programa Desenvolver 2026, da Vale, na categoria Geofísica. A iniciativa conecta estudantes universitários a desafios técnicos reais da indústria da mineração, a partir do desenvolvimento de soluções baseadas em dados de uma operação da empresa. Na UFOP, os projetos foram desenvolvidos no âmbito da disciplina de Geofísica.
Os finalistas são Nayara Almeida da Silva, Gabriel Xavier Cimini, Bruno Barros de Andrade e Arthur Guimarães. Foram submetidos 10 projetos à categoria e, ao final da avaliação, duas propostas chegaram à etapa final: o projeto desenvolvido individualmente por Nayara e o trabalho elaborado pelo trio formado por Gabriel, Bruno e Arthur.
A participação dos estudantes foi proposta pelos professores Filipe Altoé Temporim e Joney Justo da Silva, do Departamento de Geologia (Degeo), que incorporaram o desafio do Programa Desenvolver às atividades da disciplina. Os estudantes puderam escolher se desenvolveriam os trabalhos individualmente ou em grupo e tiveram acesso à base de dados disponibilizada pelo programa, referente ao alvo S16, localizado no Complexo Serra Sul, no Distrito Mineral de Carajás, no Pará.
Durante o desenvolvimento dos projetos, os estudantes participaram de aulas voltadas à utilização de softwares, receberam orientações dos professores e tiveram contato com a equipe técnica da Vale responsável pelo programa. A partir da base de dados, realizaram procedimentos de controle de qualidade, integração e interpretação das informações, tendo liberdade para definir quais aspectos seriam priorizados e quais metodologias seriam empregadas.
OS FINALISTAS - O projeto desenvolvido por Nayara, intitulado "Pipeline Computacional Integrado em Python e Oasis montaj para Auditoria, Integração e Modelagem Geofísica Tridimensional de um Depósito de Ferro", propôs um fluxo computacional para integrar diferentes etapas do tratamento dos dados geofísicos. O trabalho utilizou informações de sondagem e litologia, perfilagem geofísica de furos, gravimetria, magnetometria, eletromagnetismo transiente, topografia e modelo geológico tridimensional.
Entre as técnicas empregadas estão procedimentos de auditoria e controle de qualidade dos dados, análise estatística, classificação por meio do algoritmo K-Means e inversão gravimétrica tridimensional. O projeto integrou ferramentas como Python, Oasis montaj e VOXI Earth Modelling em um único fluxo, permitindo automatizar verificações, análises e a geração de relatórios.
Já o projeto desenvolvido por Arthur, Bruno e Gabriel teve como foco a interpretação de diferentes produtos geofísicos e dados de sondagem. O trabalho analisou informações de gravimetria, magnetometria aerotransportada, perfilagem de sondagens em seção aberta (gamma ray e densidade) e modelos litológicos construídos a partir dos testemunhos de sondagem. O professor Joney Justo destaca o diferencial do projeto pela amplitude e detalhamento das técnicas de geofísica e a interpretação integrada e manual de múltiplos produtos derivados no software Geosoft.
A partir do processamento e cruzamento dessas informações, os estudantes buscaram identificar estruturas e unidades geológicas em subsuperfície. O trabalho permitiu delimitar uma estrutura com orientação noroeste-sudeste e um corpo de formação ferrífera bandada (BIF), unidade associada aos depósitos de minério de ferro.
Segundo o professor Filipe Altoé, a utilização integrada dos diferentes dados foi importante para reduzir as incertezas relacionadas à interpretação geológica em subsuperfície. A análise identificou uma região de maior interesse geológico na porção centro-sudeste do alvo S16, onde diferentes evidências geofísicas apresentaram correspondência com a ocorrência de hematitos e jaspilitos.
Para Filipe, a qualidade dos dados também é fundamental para a confiabilidade dos modelos utilizados na exploração mineral. "Mesmo um modelo com boa convergência matemática pode levar a uma interpretação inadequada quando os dados utilizados apresentam erros de posicionamento ou outras inconsistências. Nesse sentido, os procedimentos de controle de qualidade adotados pelos estudantes contribuíram para aumentar a confiabilidade das análises", pontua.
ALÉM DA UNIVERSIDADE - A experiência possibilitou aos estudantes aplicar conhecimentos adquiridos ao longo da graduação em uma situação próxima à realidade profissional. De acordo com os professores, a formação em Engenharia Geológica foi essencial para que os resultados dos métodos geofísicos fossem interpretados a partir do contexto geológico do depósito, relacionando informações sobre estruturas, litologias e propriedades físicas das rochas.
"O contato antecipado com uma situação profissional também contribui para que o estudante chegue ao mercado de trabalho mais preparado para lidar com problemas complexos, trabalhar em equipes multidisciplinares e compreender o papel da Geologia e da Geofísica nas diferentes etapas da exploração mineral", avalia Filipe.
O professor Joney Justo explica que a atividade permitiu aos estudantes conhecer dados reais de uma operação de mineração e experimentar uma dinâmica diferente das atividades acadêmicas convencionais. Ele também afirma que a participação da maioria dos alunos foi excelente, mas alguns se dedicaram mais, "até porque na geologia, sendo uma área multidisciplinar, nem todos os alunos têm o interesse em trabalhar na área de geofísica, então respeitamos a individualidade de cada aluno e grupo na dedicação ao trabalho. E creio que os quatro que chegaram à final têm uma identificação maior em trabalhar com dados indiretos, estatística, além de todo o conhecimento de geologia."
Para ele, a experiência representa "a oportunidade de colocar em prática conhecimentos adquiridos durante a graduação na resolução de problemas reais, além de contribuir para a qualificação profissional dos estudantes”, finaliza.
A COMPETIÇÃO - A proposta do Programa Desenvolver é aproximar universidades e setor mineral por meio de desafios técnicos baseados em demandas reais da Vale. Na edição de 2026, estudantes de graduação e pós-graduação puderam participar de sete categorias, que abrangem áreas como Recurso Mineral, Reserva Mineral, Geotecnia de Mina, Perfuração e Desmonte, Geofísica e Análise Avançada de Dados.
Na categoria Geofísica, o desafio envolveu a criação de um fluxo de validação de base de dados, processamento, interpretação, modelagem geofísica e quantificação de incertezas de um depósito de minério de ferro. Os finalistas participarão, em Belo Horizonte, da etapa de encerramento do programa, que inclui apresentações técnicas, atividades de integração, contato com especialistas da Vale, visita técnica às operações da empresa e cerimônia de premiação.
O resultado final do Programa Desenvolver 2026 será divulgado hoje (3).