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Pesquisadores correm os campos para estudar as sempre-vivas, candidatas a 1º patrimônio agrícola

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Arquivo pessoal
Com: 
Júlia Militão - estagiária
Presentes nas feiras de artesanato, nos enfeites de lojas, nas casas e na decoração de Natal, as sempre-vivas são assim chamadas por serem, embora muito delicadas, bastante resistentes, mantendo as flores vivas por anos, ou mesmo décadas, o que as torna únicas. A equipe de pesquisa do Laboratório de Sistemática Vegetal do Departamento de Biodiversidade, Evolução e Meio Ambiente da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), coordenada pela professora Lívia Echternacht Andrade, estuda a taxonomia dessas plantas da família Eriocaulaceae com a intenção de explorar sua diversidade e evolução. 
 
Lívia afirma que estudar a taxonomia — ciência que descreve as espécies — é o primeiro passo para o conhecimento da biodiversidade e de todas as funções ecológicas que desempenha. "Se eu não souber o nome das espécies, não consigo conversar e nem fazer outro tipo de pesquisa sobre elas. Então, inicialmente, é preciso conhecer a biodiversidade, descrever as espécies, saber como se diferenciam, onde ocorrem, se estão ameaçadas ou não, se são plantas abundantes". Além disso, o grupo desenvolve pesquisas que visam à sistemática vegetal dessas plantas, ou seja, buscam responder como essa multiplicidade evoluiu no espaço. "A gente precisa conhecer a evolução para saber como as linhagens se diversificam ao longo do tempo; então, é um princípio de conservação também. A diversidade atual é o que vai permitir manter essa biodiversidade no futuro", explica. 
 
No Brasil são encontradas cerca de 630 das 1.200 espécies de sempre-vivas espalhadas pelo mundo. De acordo com o estudante Jean Carlos Pira, do grupo de pesquisa da professora Lívia, "o ambiente onde se encontra a maioria dessas plantas é predominantemente seco, de solo raso, arenoso/pedregoso, com afloramentos rochosos, intensa incidência solar, característico de campos rupestres" — ambiente encontrado principalmente em regiões dos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás. 
 

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Arquivo pessoal
O ambiente de campos rupestres que instigou a professora Lívia a pesquisar as sempre-vivas
 
A Serra do Espinhaço, considerada a "Cordilheira do Brasil", corta os estados de Minas Gerais e Bahia de Norte a Sul e está dividida entre os biomas Cerrado e Mata Atlântica. O local é destacado como o maior centro de diversidade do mundo. Nela está localizado o Parque Nacional das Sempre-Vivas, no município de Diamantina. 
 
A estudante do curso de Biologia Diana Rodrigues entrou para o grupo de pesquisa em 2017. Ela estuda somente as espécies encontradas no Parque Estadual do Itacolomi e na Serra de Lavras Novas. "Nesse trabalho, identificamos 30 espécies, um número significativo para o local. Foram escolhidas espécies do local, pois precisamos reconhecer o que temos ao nosso redor, para depois ampliarmos esse conhecimento para o mundo. Outro fator que influenciou foi a escassez de estudos dessas plantas no local e a proximidade com a Universidade", esclarece. 
 
PATRIMÔNIO IMATERIAL - Por preservarem seu aspecto mesmo após a colheita e possuírem botões multicoloridos, as sempre-vivas são muito utilizadas na produção de arranjos e fazem parte do mercado de flores ornamentais da região do Espinhaço desde 1930. Essas flores são coletadas por diversas famílias tradicionais da região, autodefinidas como "apanhadores de flores sempre-vivas" e organizadas em comunidades rurais. Por isso, as plantas são um importante meio de subsistência para diversas famílias tradicionais da região. 
 
No entanto, devido ao extrativismo acelerado dessas plantas, por causa do seu baixo custo no mercado; a expansão urbana; a mineração e a agricultura, muitas das espécies foram extintas nos últimos anos. Desde então, foram desenvolvidos diversos projetos de manejo controlado do ambiente e foi criada a Associação de Artesãos de Sempre-Vivas, visando promover um espaço de discussão e planejamento coletivo do cultivo das plantas.  
 
O estudante Jean Carlos, estudioso de um conjunto de plantas (29 espécies), identifica as sempre-vivas como ameaçadas de extinção, embora ainda não haja um acompanhamento histórico da distribuição e do estado de conservação delas dentro do Parque Estadual do Itacolomi — o que dificulta a análise das reais condições no ambiente e a possibilidade de se estabelecer metas de preservação. "Esse trabalho tem como um dos objetivos estabelecer ações concretas para deter a perda da biodiversidade no planeta", explica. 
 
Já a estudante Diana Rodrigues assinala que, "como quaisquer outras plantas, as sempre-vivas podem ser extintas se não tiverem o manejo correto. O Tocantins estabeleceu medidas para a manutenção das sempre-vivas da região. Lá, as flores só podem ser coletadas em uma determinada época do ano, quando os capítulos (parte onde estão as flores) já amadureceram". Em Minas Gerais, as principais partes coletadas são os escapos (caules) e os capítulos, vendidos in natura. "Os artesãos possuem as próprias técnicas de manejo e de preservação da espécie. São usadas técnicas como o replantio de sementes, gerando uma fonte de renda sustentável. Entretanto, medidas como uma fiscalização eficaz contra os apanhadores clandestinos e contra crimes ambientais como as queimadas se fazem necessárias". 
 

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Arquivo pessoal
 
Atualmente essas comunidades de apanhadores são referência internacional e foram indicadas ao programa da FAO/ONU como "Patrimônio Agrícola Mundial" pela Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (Codecex), organização social que representa regionalmente as comunidades apanhadoras de flores sempre-vivas, com o apoio de pesquisadores. 
 
RESPEITO AO AMBIENTE - Como especialista em Botânica, a professora Lívia considera o trabalho dos apanhadores da região respeitável e proveitoso, pois eles veem as sempre-vivas como mais do que uma fonte de renda. "Muitos aprendem o ofício quando crianças, descendo e subindo a Serra do Espinhaço e, por isso, possuem uma ligação com as plantas que vai além do financeiro e as conhecem como ninguém", relata, acrescentando que é muito importante ter esse conhecimento do ambiente e da flora explorados, saber quando retirar e como cultivar de maneira sustentável para evitar a extinção das espécies. 
 
A professora aponta para uma preocupação em relação ao extrativismo exagerado, visto que as plantas são baratas e vendidas a quilo. Por isso, considera a atividade dos artesãos muito importante: "eles se organizam não apenas para coletar em campo, mas também para enriquecer os campos com sementes. Eles coletam um número bem menor de flores e agregam valor no artesanato", comenta, explicando também que, usando menos flores, é possível produzir um trabalho artesanal comercializado a um preço superior ao que é vendido a quilo. E completa dizendo que “o artesanato das sempre-vivas pode favorecer a conservação das espécies se feito de forma manejada e sustentável”.  

 

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