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Mulheres na ciência: o reconhecimento aos olhos de quem conquistou o prêmio

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Jaqueline dos Santos Soares nasceu em São João del-Rei, cidade histórica do circuito do ouro em Minas com cerca de 90 mil habitantes. Doutora em Física pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tornou- se professora adjunta da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em 2013, onde ministra entre outras disciplinas "Física Experimental Avançada", "Física Geral" e "Física Aplicada à Biologia".
 
Primeira da família a ingressar no ensino superior, ela afirma que a carreira científica foi possível graças ao incentivo financeiro garantido por agências brasileiras como a Capes e o CNPq. Hoje, Jaqueline coordena o projeto "Deposição e caracterização de revestimentos de hidroxiapatita com incorporação de nanoestruturas para aplicações biomédicas", em parceria com a também professora Taíse Manhabosco.
 
Um dos objetivos do projeto é melhorar a qualidade de próteses ortopédicas e dentárias, tornando as peças mais baratas e resistentes com o uso do talco produzido a partir da pedra-sabão — matéria-prima abundante na região dos Inconfidentes e que se mostrou biocompatível ao organismo humano em testes preliminares — para o revestimento dos implantes.
 
Em 2018, a pesquisadora recebeu o prêmio "Para Mulheres na Ciência", concedido pela L’Oréal Brasil em parceria com a Academia Brasileira de Ciências e a Unesco Brasil. Três anos depois, e próximos da 16ª edição do prêmio, Jaqueline fala sobre a técnica da espectroscopia Raman e sobre as barreiras que ainda precisamos derrubar em termos de igualdade de gênero na ciência.
 
Jaqueline, quando você descobriu na ciência uma carreira possível?
 
Durante minha graduação em Física fui bolsista de iniciação científica e trabalhei durante dois anos com cálculos de primeiros princípios — acho que a "Jaqueline pesquisadora" nasceu em algum momento daquela época. Continuei os estudos durante a pós-graduação, também em Física, e fui contemplada no decorrer dos anos com bolsas da Capes, do CNPq e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla inglesa), durante o estágio pós-doutoral. Não pretendo me gabar para os leitores, mas é fundamental perceber que as bolsas de incentivo à pesquisa garantem o avanço das ciências de qualquer natureza. Estudar demanda tempo e dedicação muitas das vezes integral. Portanto, para discorrer sobre a carreira na ciência, é preciso discutir as possibilidades de subsídio para a pesquisa. Hoje, infelizmente, o cenário não é o ideal.
 

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Fábio Augusto
Jaqueline Soares e Taise Manhabosco em foto de 2018
 
Estamos bem próximos da 16ª edição do prêmio "Para Mulheres na Ciência". Em 2018, você foi laureada na categoria Física. Qual a relevância de uma premiação como essa?
 
É um prêmio de extrema importância. Em primeiro lugar: Visibilidade importa. Obviamente contamos com a colaboração de pesquisadores em diversas Instituições do estado de Minas Gerais, e também de outros estados do Brasil, mas quem coordena o projeto somos eu e a profa. Taíse, ou seja, duas mulheres. Em segundo lugar: Apenas em 2018 foram premiadas duas pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP), uma da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e outra da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), enfim, todas vindas de grandes capitais, com exceção da UFOP, que se posicionou no cenário nacional daquele ano. Quero dizer que desenvolvemos pesquisas de excelência no interior e é preciso mostrar que essa relação hierárquica equivocada entre centro e periferia não afeta a qualidade do trabalho científico. 
 
 
 
 
 
Desde então, três anos se passaram. Qual o estágio atual da pesquisa?
 
O projeto continua ativo, mas caminhando devagar. Além dos cortes sofridos em educação e pesquisa nos últimos anos, a pandemia de Covid-19 impediu o acesso (já complicado) das pesquisadoras aos laboratórios, que ficam em Belo Horizonte, na UFMG. Hoje estudamos o protótipo. Sabemos a partir de testes realizados, por exemplo, que o corpo humano não vai rejeitar a nossa prótese (o que chamamos biocompatibilidade), e isso é excelente. Nosso objetivo agora é angariar recursos para terminar a montagem do laboratório de espectroscopia raman da UFOP e depois tentar parcerias com setores do mercado.
 
Espectroscopia Raman é o nome da técnica utilizada para o desenvolvimento do projeto, correto? O que ela possibilita ao pesquisador?
 
Correto. É uma das técnicas utilizadas para o desenvolvimento deste projeto. A espectroscopia Raman permite ao pesquisador a caracterização do material em desenvolvimento. O que isso significa? Significa que ao fim do estudo é preciso a garantia absoluta de que as nanoestruturas retiradas do talco da pedra-sabão foram incorporadas ao material da prótese. A espectroscopia Raman nos permite ter essa clareza. Fazemos a leitura a laser do material, neste caso o protótipo. A partir da energia espalhada pela luz, é possível observar nas moléculas do material uma "assinatura" – que podemos comparar à digital humana, quer dizer, cada material possui uma assinatura espectroscópica única, que nos permite afirmar se o resultado atingido foi o esperado. Com a espectroscopia Raman podemos obter a assinatura de qualquer material existente no mundo, seja líquido, sólido ou gasoso e, por isso, a técnica poderia ser utilizada por qualquer pesquisador da Universidade: engenheiros, bioquímicos, físicos, biólogos, médicos e por aí vai.
 
E o que seria preciso para instalar o laboratório de espectroscopia raman na UFOP?
 
É preciso um laser, um detector, um espectrômetro e uma mesa óptica. Já temos a mesa, de duas toneladas de granito, com pés antivibratórios que isolam a vibração do solo (aquela causada por ônibus, por exemplo), evitando a interferência externa nos resultados apresentados ao final da análise. Temos também um laser e um detector que precisa ser acoplado ao espectrômetro — que ainda precisamos adquirir. Ou seja, com oito anos de pesquisa estamos quase lá. 
 
Neste ano, o movimento #maternidadenolattes conquistou uma vitória: pesquisadoras finalmente poderão indicar no currículo acadêmico os períodos em que ficaram afastadas do trabalho por conta da licença maternidade. Quais outras barreiras ainda precisamos derrubar em termos de igualdade de gênero na ciência?
 
Eu não tenho filhos, mas tenho empatia. Com a licença maternidade, as mulheres se afastam da pesquisa, o que afeta o nosso retorno às instituições de fomento, nossa divulgação aos pares e, no final do processo, a concessão de bolsas. Ao desconsiderar o tempo indicado para a licença maternidade, podemos equilibrar a situação de mulheres mães com a situação de pessoas que não passaram por essa situação — mulheres ou não. Mas é preciso dizer, ainda, que mulheres sofrem com outras situações: diversas vezes nos afastamos de nossas pesquisas porque precisamos auxiliar algum integrante da família; precisamos cuidar sozinhas dos afazeres domésticos; estamos praticamente sozinhas em eventos de divulgação científica; homens confiam mais em outros homens para cargos de chefia, cargos de direção, de comando, então dificilmente assumimos essas posições. No Departamento de Física da UFOP, por exemplo, somos duas pesquisadoras com bolsas de produtividade do CNPq entre sete pesquisadores. A maternidade no lattes é a ponta de um processo muito difícil e solitário para a mulher na ciência. Uma vitória importante, mas simbólica, eu diria. 
 
E quais conselhos você daria para as meninas, adolescentes e mulheres que gostariam de seguir carreira como cientistas, principalmente na Física?
 
Um primeiro passo é deixar para trás essa grande mentira de que a Física, ou qualquer outra disciplina das ciências exatas, não é "área para a mulher". Por que não? Outra grande mentira é aquela que se coloca na cabeça de meninas que nascem no interior de que não é possível chegar aonde você sonha. Eu saí do interior de Minas para fazer parte de um grupo de pesquisa fora do país. Fui a primeira da família a ingressar no ensino superior. A segunda foi minha irmã mais nova. Minha família não tinha recursos, nem era uma família tradicional de universitários, por assim dizer. Muitos vêm me falar que fui "sortuda". Não acho. Fui muito afeita ao meu trabalho. Superado isso, é preciso ter curiosidade. É isso que move a pesquisa. Quanto mais curiosa a pessoa, mais sortidas as ferramentas para buscar respostas às situações diversas que nos aparecem.
 
EM DISCUSSÃO - Esta seção sempre é ocupada por uma entrevista, no formato pingue-pongue, realizada com um integrante da comunidade ufopiana. O espaço tem a função de divulgar as temáticas em pauta no universo acadêmico e trazer o ponto de vista de especialistas sobre assuntos relevantes para a sociedade.
 

 

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